Tendências para um mundo sociodigital

Descrever tudo o que aconteceu na Conferência Internacional de Redes Sociais, que aconteceu em Curitiba entre os dias 11 e 13 de março, é uma tarefa inglória. Afinal, um encontro que reuniu mais de 3 mil pessoas e 100 palestrantes – entre eles Steven Johnson, Clay Shirky e Pierre Lévy – só pode resultar em um turbilhão de ideias e tendências que busquei resumir nos tópicos a seguir:

Redes sociais e as cidades

Ao contrário do que se previa, a cada ano mais e mais pessoas estão deixando o campo e vivendo nas cidades. Em 2007, 3,3 bilhões de pessoas moravam em grandes centros; em 2050 estima-se que esse número chegue a 6,4 bilhões.

De acordo com Clay Shirky, “quanto maior e mais densa a concentração de pessoas mais precisaremos desenvolver ferramentas de comunicação e informação eficazes para ambientes populosos como as grandes cidades”. O autor do livro Here Comes Everybody relembra o sistema pneumático muito utilizado na comunicação dos primeiros arranha-céus para que as pessoas não precisassem mais subir ou descer dezenas de andares para se comunicarem uma com as outras. As redes sociais e a internet terão papel fundamental em aperfeiçoar a comunicação e potencializar a extração de inteligência das informações geradas pelos habitantes desses centros.

Steven Johnson concorda e complementa: “a internet é essencial principalmente às grandes cidades. Nas pequenas, as pessoas conseguem ter noção de tudo aquilo que ocorre em sua volta, do novo restaurante da rua principal à posse de um novo legislador. Já a proporção que algumas cidades tomaram fez com que seus moradores perdessem essa noção do todo e a internet e seus dados acabaram se tornando fundamentais para o melhor aproveitamento do espaço público.

Rede de coisas

O volume atual de dispositivos conectados à rede é estimado em 1 trilhão, principalmente por conta dos videogames e dos celulares. A recente queda da rede do Playstation 3 fez com que todos enxergassem uma promessa antiga: a internet não é mais formada apenas por computadores e sim por todo tipo de gadget fruto do processo de digitalização iniciado na década de 80.

Isso faz com que possamos estar em contato direto entre o mundo virtual e o mundo real e um dos grandes exemplos dessa integração é o FourSquare. Esse aplicativo para celulares cria uma rede social orgânica, pois novas conexões podem surgir em tempo real baseadas na localização de cada indivíduo.

Integração real x virtual

Casos famosos como a trilogia de vídeos de Dave Caroll contra a United Airlines utilizaram o poder da web para reverberar uma mensagem, porém não para mobilizar pessoas em torno dela. Esse movimento de aversão à companhia aérea acabou surgindo como “efeito colateral” da atitude do cantor, e não de forma planejada.

Entretanto, o fato de as pessoas estarem cada vez mais conectadas faz com que aumentem o número de iniciativas que utilizam as redes sociais virtuais para mobilizar grupos em torno de causas ou em prol de mudanças no mundo real de forma estruturada. Exemplos não faltaram durante os três dias de evento, como o PatientsLikeMe, SeeClickFix, MeetUp e o KickStarter.

 

Privacidade, excesso de informação e PKM

A presença em todas as redes sociais traz implicações como o excesso de exposição e a perda de privacidade. Porém, Steven Johnson relembra que isso não pode ser usado como argumento para abandoná-las. Pelo contrário, precisamos usufruir tudo isso que é oferecido por elas, mas sabendo preservar nossa intimidade. Steven sugere, inclusive, que isso seja ensinado nas escolas às crianças desde os primeiros anos.

As questões relacionadas ao indivíduo inserido nas redes sociais também foram assunto da fala de Pierre Lévy que abordou a gestão pessoal do conhecimento no último dia da conferência. O filósofo francês acredita que o “problema não está no excesso de informação e sim na ausência de critérios individuais de foco e de escolha de fontes confiáveis a seguir”. Para contornar esse problema, Lévy propõe um método composto de nove etapas, além do uso de processos e ferramentas de PKM (personal knowledge management):

  1. Gestão da atenção
  2. Conexão com fontes valiosas
  3. Agregar/Coletar fluxos de informação
  4. Filtragem
  5. Categorização
  6. Registro para memória de longo prazo
  7. Síntese
  8. Compartilhar/comunicar
  9. Reassess (retrofluxo do processo)

O saldo desta troca intensa de interações mostra que temos ainda um grande campo a ser explorado. A onipresença da tecnologia faz com que ela se entrelace às nossas vidas de uma maneira que praticamente não percebamos mais sua existência. Isso faz com que, finalmente, as atenções se voltem para o ponto de onde jamais deviam ter saído: as pessoas.

(Andre de Abreu)

Entre egos e a realidade: a grande mídia na berlinda do DigitalAge 2.0 2009

O painel em ação
O painel em ação

Ao que tudo indica (confiram o blog), o painel “A crise da mídia tradicional. Quem vai publicar as notícias que vão alimentar a conversa?” colocou pimenta nos olhos dos participantes e da platéia. Para mim, como mediadora, foi uma ótima oportunidade de reiterar ao vivo e a cores todas as opiniões que venho postando aqui no Intermezzo em tempos recentes: as tradicionais marcas de mídia no Brasil posicionam-se entrincheiradas e resistentes à inovação.

Assistimos a um interessante embate entre egos das personalidades mais conhecidas presentes, até com o surgimento de uma nova denominação para as mídias tradicionais: agora é de bom tom referir-se a elas como “mídias clássicas”. Também assistimos a uma tentativa de desvio temático no painel, onde quase todos os participantes centraram-se no antagonismo novas e velhas mídias.

A proposta de discussão do painel nunca esteve centrada nesse antagonismo. Pelo contrário. O objetivo do painel sempre foi discutir algo mais amplo: a mudança de postura estratégica e cultural de nossas empresas de mídia a partir das tendências globais hoje em curso; o novo patamar de relacionamento com os públicos, integrando a força das redes sociais; e a busca de um novo modelo de negócios dentro do novo contexto. Para contextualizar as discusões, o jornalista Clayton Melo do IDGNow publicou uma excelente entrevista com esta escriba  no blog do evento, e também foi disponibilizada a apresentação que fiz como introdução ao tema.

Embates e egos à parte, o painel resultou numa demonstração de que seus temas principais não eram o foco de atenção de nossos publishers. Ficamos sem saber as respectivas opiniões sobre o que interessa: o mundo da informação digital está mais uma vez em transição e qual seria o posicionamento do Estadão, da Época, da CBN e de um especialista sobre o que vem pela frente?

Durante minha introdução ao tema do painel nossos colegas foram instigados com interessantes vertentes da discussão: a síndrome da periodicidade versus fluxo informativo contínuo; o uso desconfigurado do blog como coluna de opinião e do twitter como substituto de feeds RSS; a integração da voz e opinião dos usuários; e as diferentes formas de geração de receitas. Nada disso pareceu perturbar nossos tótens jornalisticos ali fincados.

Para o Digital Age 2010 proponho colocar pimenta malagueta da boa na mesa: que tal o debate com que já vivencia transição e mudança mundo afora?

(Beth Saad)

A comunicação de governo e o mundo digital: acordaram?

ForumMidiasSociais140709 (11)Esse post surge na sequência da palestra que fiz no Fórum de Mídias Sociais, em 14/07/2009, em Brasília. O evento foi organizado pela SECOM – Secretaria de Comunicação da Presidência da República. Pelo título já podem inferir minhas impressões iniciais: ainda faltam muitos passos no percurso digital; ainda é preciso entender e se posicionar na web 1.0 prá depois se encantarem com blogs, campanhas tipo Obama e similares; ainda bem que prestaram atenção no tema.

Tentando resumir toda a cena:

Encontrei ali alguns poucos núcleos de percepção e uso contemporâneo da web e das redes sociais, a exemplo do Ministério da Cultura, com uma interessante equipe envolvida e atualizada e com uma política de Cultura Digital definida e com um projeto de ação no mundo das redes; também o Ministério da Saúde, utilizando a web na linha de prestação de serviços e esclarecimento à população, em formato muito oportuno; a própria SECOM buscando construir o novo Portal e lançando a versão beta do Blog do Planalto, com um sério esforço em compor uma equipe jovem e atualizada, mas com uma boa dose de limitações estruturais e, especialmente, culturais e políticas diante da perspectiva de diálogo em rede.

Primeira visualização oficial do Blog do Planalto
Primeira visualização oficial do Blog do Planalto

Encontrei ali, também, uma platéia lotada (precisou colocar telão no saguão do auditório), constituída de assessores de comunicação dos diferentes órgãos governamentais. Uma platéia que me passou a sensação de que eu “falava grego” mas, que esse grego era o que todos deveriam ter aprendido, mas perderam o bonde e, agora, a sociedade lhes cobra atualização.

Encontrei ali núcleos de resitência diante do novo. Normal em qualquer processo de inovação tecnológica paradigmático. Resistência um tanto agravada quando falamos de Governo, onde os profissionais estão mais preocupados em buscar a PortariaX que vai respaldar sua ação de comunicação tradicional e possibilitar, por exemplo, processar por falsidade ideológica o usuário que copia e cola material do site. (Por favor, não generalizem essa visão).

E a comunicação de governo no mundo digital, como fica?

Em meio à cena descrita essa foi a pergunta inevitável. Da mesma forma que o colega Emerson Luís, assessor de comunicação  da Dataprev e uma das poucas “luzes” ali presentes, descreve o evento em seu blog e relata como o tema mídias sociais deixou todos atônitos, eu fiquei pessoalmente atônita com a falta de uma real política de comunicação do governo para o mundo digital. Afinal, o que o governo e suas diversas entidades quer dizer para os 62 milhões de internautas brasileiros? Sob qual imagem e identidade de marca? Qual o branding e a reputação digital que sustentam a presença do “.gov.br” na rede? Qual o plano de comunicação digital, respectivas ferramentas, plataformas e narrativas?

Fica um tanto difícil responder a essas indagações quando vi ali o próprio ministro da SECOM dizer alto e em bom som na abertura do evento o discurso que corre em uníssono por entre os jornalistas de velha cêpa (acho que todos combinaram entre si): o público quer, precisa e não conhece outra forma de ser informado a não ser pela fórmula de notícias 24×7, preferencialmente apresentadas por um jornal impresso e, sempre editadas (já que o público precisa da edição para entender o mundo…). Em tempo: de forma alguma nego ou rejeito o bom e velho jornalismo (sou eterna leitora de meu Estadão impresso todas as manhãs). Ocorre que esse formato hoje não é único e nem hegemônico. Existem outras formas e fontes de informação (as digitais, as sociais) que entram na cesta de escolhas informativas de todos nós. É preciso saber conviver com a diversidade.

Permanece a dificuldade em responder às tais indgações básicas quando vemos a proposta do Blog do Planalto. A visualização de conteúdo apresentada explicitou, de cara, material editado e com narrativa piramidal do meio impresso. E aquelas ferramentas mínimas de um blog? O uso de hiperlinks? Uma nuvem de tags? (até tinha, a nuvem de assuntos, mas escondida ao final da terceira tela de rolagem) Posts mais populares? Enfim, coisas básicas para um blog que já na concepção definiu a não aceitação de comentários (OK, questionável, mas aceitável diante da responsabilidade da empreitada). Ficou a percepção de que era preciso ter um blog como passaporte para o mundo contemporâneo da rede. Mas, qual a sua política editorial? Em tempo: é pública a escolha, por meio de edital da SECOM, de uma empresa que é responsável pela execução do Portal do Governo e por sua comunicação digital. Estão trabalhando, aguardemos. Mais em tempo: é visível a seriedade da equipe da SECOM sobre o tema.

Rumos e possibilidades

Minha postura no mundo é de otimismo. Em qualquer situação.

Evidente que em termos de mundo das redes não é possível correr atrás do prejuízo. E, no caso da comunicação digital de governo no país o déficit é grande: há que se mudar a cultura em todos os níveis; há que se melhorar primeiro as ações 1.0, já que muitos websites, portais estão aquém do estado-da-arte; há que se evangelizar (e treinar explícitamente) pessoas, funcionários, assessores, colaboradores; há que se entrar no ritmo digital.

Não serão blogs soltos no ciberespaço que resolverão um processo muito mais amplo. O potencial comunicativo de governos na rede é imenso. No exterior existem organismos profissionais que estudam, analisam e aconselham ações de governos digitais. No Brasil também existem iniciativas, ainda tímidas.

Se não é possível correr atrás do prejuízo o melhor é queimar etapas e tomar o bonde num ponto mais adiante.

(Beth Saad)

PS: para saber um pouco mais do que rolou no eveno vejam a #prmidias no twitter.

Ainda sobre blogs …mas, para que servem mesmo?

2006042700_the_blog_345Na esteira do buzz sobre o Fatos e Dados, da Petrobrás tive acesso a um interessante conjunto de opiniões e posições das mais diversas fontes – jornalistas, pesquisadores, profissionais de mercado, curiosos, entre outros. Disso tudo ficou muito claro que o calor das discussões acaba por deixar de lado a essência do tema: o uso do blog como uma ferramenta de mídia social.

Pelo lado dos jornalistas e das empresas jornalísticas a discussão ficou centrada na relação fonte-veículo e também no uso do blog como mídia. Os profissionais de comunicação tinham por foco a quebra do paradigma da mediação e a possibilidade concreta de uso das ferramentas de mídia social para isso, mas com uma sucessão de dúvidas sobre como e para que. Pesquisadores e a academia mantiveram-se à distância, como usual. Usuários e blogueiros, no mínimo, fizeram a festa. Tais opiniões refletem a diversidade de compreensão dobre o que na realidade são e para que servem os blogs.

Claro que não vou aqui nesse Intermezzo discorrer sobre as origens do blog nos diários pessoais,  sobre a quantidade de autores que discutem cientificamente o  tema (sim, blogs há tempos são objeto de pesquisa!) ou sobre seu uso nos mais diferentes campos de atividade. Existem muitas fontes para isso na própria web, prá começar. Gostaria, de indicar dois pontos-chave que condicionam o uso (adequado ou não) do blog em nossa rotina comunicacional:

1. A confusão entre plataforma de publicação e ferramenta de mídia social

Desde suas origens o blog  trouxe uma característica muito atraente para qualquer usuário da web: a possibilidade de publicar e estar presente na grande rede, gratuitamente e sem esforços técnicos de especialista. Com isso, plataformas como WordPress e Blogger possibilitaram a existência dos 133 milhões de blogs registrados, segundo o último relatório sobre a Blogsfera do Techoratti. Com isso, surgem em ritmo de pãozinho quente os mais diversos tipos de propostas de conteúdo utilizando esse caminho rápido e fácil de publicação, confundindo o uso social da  ferramenta com uma forma de construir um website. O que temos, em muitos e muitos blogs, são o que chamo de blogsites: uma página na web, que pouco explora as características oferecidas pela plataforma que configurariam o blog como uma mídia social.

Com isso, os posts acabam se transformando em longos textos com tom de press release ou de discurso individualista; comentários inexistem ou parecem construídos; resposta a comentários é algo fora de questão; blogroll entra na lista das incompreensões; nuvem de tags, como assim?;  feed RSS, widgets integradores com outras ferramentas e as APIs mais recentes estão fora de cogitação.

Ok! São muitas as exigências? Talvez, mas se todas essas funcionalidades não forem exploradas parece-me inadequado chamar a página de blog. Que se publiquem milhares de páginas, mas por favor, só vamos chamar de blog aquelas que  honrem o termo. Não tem problema chamar de website. a plataforma não condiciona a denominação.

2. A fetichização do blog

Blogs sempre fizeram sucesso. Daí que criar e alimentar um blog “passou” a ser símbolo de atualidade e contemporaneidade, algo como uma passagem para o mundo 2.0. Seria isso mesmo? As aspas no “passou” são propositais.

Hoje assistimos a uma onda:  o blog do presidente da empresa X, o blog do governo Y, o blog do candidato Z, o blog do Sr. N…..e assim vamos engordando a blogsfera, como se blogs fossem a solução para a presença no mundo 2.0.

Bem, é preciso ir para além da ferramenta e do fetiche. É preciso olhar para a efetividade de um blog. Primeiro, porque blog que é blog dá trabalho, toma tempo e exige envolvimento real do autor: escrever posts, responder aos comentários, manter atualidade e periodicidade, disseminar pelas redes e listas, inserir hiperlinks oportunos, pensar nas formas de ampliação do tráfego, entre outras atividades. Segundo, porque efetividade tem tudo a ver com repercussão, replicação, discussão: características inerentes a um conteúdo de interesse para os usuários/leitores. E, terceiro, porque o blog é apenas uma parte de um processo estruturado, planejado e estratégico de atuação no mundo 2.0.

Na verdade, o blog utilizado  em sua plena capacidade, por assim dizer, deve ser considerado como objeto social: uma ambiênica digital que agrega idéias e opiniões compartilhadas, discutidas e ampliadas por um conjunto de pessoas com um interesse comum, utilizando para isso uma diversidade de ferramentas, funcionalidades e micro-sistemas que facilitam, dinamizame ampliam o processo como um todo. Apenas isso.

E o seu blog, é blog? what-is-a-blog

(Beth Saad)

Blog da Petrobrás é apenas a ponta do iceberg

Desde o dia 2/06/2009 estamos acompanhando o impacto do lançamento e as repercussões do blog Fatos e Dados da Petrobrás. Um embate de gente grande, de um lado o poder da maior empresa brasileira que, além de tudo, é estatal; e de outro os grandes jornais do país, representando o poder da informação. No meio disso tudo a questão forte: uma efetiva e perigosa quebra da relação fonte-veículo de informação. A Petrobrás, ao publicar no blog perguntas e respostas a ela enderaçadas pelos jornais O Estado de S. Paulo, Folha de S. Paulo e O Globo (um material tipicamente de apuração) coloca em questão a atividade mais básica do jornalismo que é a edição. Isso sem falar que tal atitude também põe no mesmo pacote o papel de mediação, a credibilidade, a ética, entre outros pontos fundantes.

Na origem, o blog foi criado, segundo texto da própria empresa para apresentar “fatos e dados recentes da Petrobras e o posicionamento da empresa sobre as questões relativas à Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI)“. Tudo certo, em princípio, pois, num momento de dinamismo comunicacional a Petrobrás optou pelo formato blog, bastante adequado à situação. Esse Intermezzo não vai detalhar ainda mais o tema sob o ponto de vista dos preceitos jornalísticos. Muitas foram as avaliações e destacamos os posts dos professores Rogério Christofoletti e Wilson Bueno, e do blog Dicas de um Fuçador. Sem contar, claro, com a enormidade de posts que surgem no Twitter. Em resumo, a Petrobrás apenas faz uso daquilo que está disponível gratuitamente da web para posicionar-se. Se ela usa adequadamente ou não é tema para outro post.

Gostaria de comentar, um pouco mais, sobre o fato de que, uma grande empresa estatal, ao entrar no mundo da web 2.0, se constituindo como um novo pólo de emissão na rede, ameaça os tradicionais emissores de nossa sociedade em seu papel constituído do Quarto Poder. O fato, em seu todo, inaugura uma nova etapa de reconstituição de forças do poder da informação, só possível nos ambientes de mídias sociais. A gritaria geral da imprensa tradicional (hiper justificável pela questão jornalística) também se dá pela incapacidade de nossos veículos se defrontarem com a prática da web 2.0 e sua multiplicidade de vozes.

Para essa discussão remeto ao texto do professor Jeff Jarvis que analisa a convivência entre jornalismo e blogs em recente ação do The New York Times. Sua frase: “...here we see a clash over journalistic culture and methods – product journalism v. process journalism” deixa claro que a questão é cultural e essencialmente de método.  Penso ir mais adiante vinculando cultura e métodos ao ambiente de mídias sociais em redes digitais.

O primeiro ponto é saber se as empresas informativas sabem como agir em rede. Se sabem o que significa para sua marca, imagem e credibilidade informativa estar em paridade com múltiplos emissores, jornalísticos ou não, e especialmente dialogar com os elos fortes e fracos de múltiplas redes. A novidade para os grandes nomes da mídia tradicional, ao que parece, é buscar um novo papel para si nesse cenário: ser o influenciador favorito para os usuários/leitores. Como se destacar em intensidade, importância e referência, diante de um conjunto diversificado que compõe as redes sociais na web.

No caso específico do blog da Petrobrás como, apesar da força informativa que a empresa pretende impor, tornar-se o provedor de informação favorito para os interessados no tema. É possível?

O segundo ponto, bem mais sensível, é a mudança cultural e formativa do profissional. Aqui a palavra-chave é mudança. Irreversível. O que assistimos, hoje, no ambiente brasileiro é um descompasso no ritmo dessas mudanças. No presente momento vemos a academia, Ministério da Educação e as entidades representativas da indústria em discussão “lenta e gradual” das novas diretrizes curriculares para os cursos de jornalismo e da obrigatoriedade do diploma, pautados pelos preceitos da preservação da espécie; e de outro lado temos o ambiente em ebulição, que faz suas mudanças a toque de caixa, que exige posturas de ação-reação típicas do meio digital e que deixa prá trás quem está fora de compasso.

Nesse contexto, estariam os nossos profissionais preparados para a dinâmica contemporânea? Profissionais, empresas informativas e escolas querem efetivamente promover mudanças? Rápidas?

Por fim, enquanto as empresas informativas buscam entender o que é estratégia de diferenciação no mundo 2.0, e  a academia e as instituições hesitam em absorver uma nova cultura, corre em paralelo o embate entre o padrão de produção e consumo da informação no impresso e no online. Na era da informação 2.0, para Jeff Jarvis, o “mito da perfeição”  de processo jornalístico que todo profissional almeja entra em crise quando confrontado ao novo patamar de relacionamento e diálogo exigido por um ambiente de multiplicidade de vozes.

Na verdade, o blog da Petrobrás apenas desencadeou uma discussão que estava abrigada no nível subliminar de nosso Jornalismo. A ponta de um enorme iceberg de rota desconhecida.

(Beth Saad)

O marxismo explica a web 2.0

O marxismo ainda hoje é considerado algo subversivo. Papo de comunista ou de universitário esquerdóide. Entretanto, uma leitura atenta e livre das paixões partidárias que o estigmatizaram pode trazer explicações sobre muitos movimentos recentes do mundo capitalista, incluindo algumas ligadas à comunicação digital.

Uma releitura da obra de Marx é o que faz a New Left há quase 50 anos. Para falarmos de comunicação digital eu destaco dois de seus representantes: Raymond Williams e Stuart Hall.

O fim dos blogs

Capa da edição brasileira do livro Palavras-Chave, de Raymond Williams
Capa da edição brasileira do livro "Palavras-Chave", de Raymond Williams

Em outubro, o artigo de Paul Boutin na revista Wired deu início a uma série de questionamentos sobre a continuidade dos blogs as we know it. Um de seus argumentos para isso é o fato dos blogs terem sido apropriados por profissionais e empresas que buscam, de alguma forma, monetizar o meio. Desta forma, perde-se a essência de blogs como um canal de comunicação livre e desprendido de qualquer interesse maior. Os espaços públicos atuais para esse tipo de manifestação seriam os serviços de microblogging e comunidades de relacionamento como Twitter e Facebook, respectivamente.

Raymond Williams, em seu “Palavras-Chave”, já previa esse fenômeno. Na obra, ele constata que algumas palavras que definem a nossa sociedade vão mudando de conceito e sentido com o passar dos anos para atender o interesse dominante da ocasião.

Os blogs nasceram como instrumentos de livre expressão e criatividade. Hoje, convivemos com uma massa blogueira que, se não é assalariada para cumprir sua função, persegue de forma insaciável – e, muitas vezes, pouco ética – os invejáveis dólares dos links patrocinados. Palavras são modificadas e discursos são medidos a base de Google Trends em busca de mais page rank. É a versão digital da tão criticada atitude dos programas de televisão que moldam seus conteúdos com base no monitor em tempo real do Ibope.

Comunicação colaborativa

Capa da edição brasileira de Da Diáspora, de Stuart Hall
Capa da edição brasileira de "Da Diáspora", de Stuart Hall

Contemporâneo de Williams, Stuart Hall foi o primeiro editor da New Left Review, que existe até hoje, e um dos principais representantes da Escola de Estudos Culturais de Birmingham, fechada abruptamente em 2002.

Uma das características da sua obra é justamente a crítica ao modelo comunicacional da Escola de Frankfurt, que enxerga o leitor estritamente como receptor, impossibilitado de produção em relação aos meios culturais.

Entretanto, Hall analisa em “Da Diáspora” que a massa não é um receptor passivo, e sim um ativo produtor de cultura. Apesar de o autor tecer seu discurso em uma época em que a internet praticamente não existia, é possível fazer muitas correlações entre o seu pensamento e os acontecimentos presentes.

Por estarmos em um mundo tão mutante e complexo, é fundamental para o comunicador conhecer e revistar a obra desses pensadores que levaram praticamente toda a vida refletindo sobre os fenômenos culturais e comunicacionais da sociedade.

A partir de um repertório sólido, o comunicador poderá compreender de forma mais ampla as relações e conseguirá elaborar estratégias comunicacionais sólidas e duradouras ao invés das famosas “estratégias-estopim”, que fazem muito barulho mas agregam pouco ao relacionamento de longo prazo entre empresa/veículo-consumidor/leitor.

(Andre de Abreu)

Agregadores e buscadores focam na segmentação: Topix e Twitter Search

É conhecida a polêmica entre empresas jornalísticas e operadores de busca em torno de sistemas agregadores de notícias como o Google News e o Yahoo News: estas últimas estariam “roubando” notícias produzidas pelas marcas jornalísticas, sem agregar qualquer valor ao conteúdo alheio. No campo dos micro-blogs, tendo o Twitter como carro-chefe, vemos alguns especialistas e publicações questionarem a utilidade do sistema.

É para seguir em frente que as polêmicas servem. Em post recente do Editors Weblog chamou a atenção o agregador de notícias independente Topix.net que ali é considerado como um website jornalístico, rankeado em terceiro lugar nos Estados Unidos, atrás do The New York Times e do USA Today

O que o Topix tem de diferente? Segundo seus criadores: os jornais oferecem notícias e o Topix oferece uma plataforma para discussão dessas notícias. Ou seja, o Topix tem audiência porque dá espaço para o leitur discutir conteúdo, cria uma diversidade de fóruns, segmenta a informação por micro-regiões, por exemplo, engaja o leitor. Poderíamos considerar o Topix o precursor de uma geração de agregadores 2.0 porque agrega valor de rede social a um conteúdo unilateral.

E oTwitter? Por excelência um representante da era dos sites de redes sociais, percebe que a postura de agregar valor é a saída para fazer de seu imenso banco de dados de cadastrados e de informações que circulam nas mensagens algo valorizado na rede. Para isso, em parceria com o Google Co-op, lançou o Twitter Search que realiza buscas com qualquer palavra-chave ou nome próprio em todo o conteúdo das postagens do sistema, em tempo real.

Com isso, tem-se uma espécie de monitoramento temático e opinativo (com as devidas limitações de método e amostragem), a custo zero, de valor considerável para quem opera informações na web.

 

Os ganhos pela segmentação

Tanto o Topix quanto o Twitter visam explorar a segmentção resultante do uso desses sistemas para oferecer a anunciantes audiênicas super diferenciadas e especializadas. Nos dois casos, é possível alcançar a micro-segmentação, incluindo para o Topix a micro-localização, tornando os sites atrativos para anunciantes que, se anunciassem em websites de amplo alcance (portais) jamais alcançariam segmentos tão específicos.

Se buscadores e agregadores já eram considerados concorrentes de empresas informativas por conta da oferta de conteúdo, agora se configuram como também concorrentes no faturamento. Decididamente é preciso repensar muita coisa no ambiente das empresas informativas.

(Beth Saad)

O erro 1.0 das agências de comunicação 2.0

A bolha de 2000 foi um marco na história da internet. Ela nos fez aprender que, apesar de virtual, a web está intrinsecamente ligada à nossa realidade cotidiana. Entretanto, algumas lições da época não foram aprendidas. Um exemplo disso é a recente moda das agências de comunicação brasileiras criando seus braços digitais.

Recentemente, uma agência de comunicação me procurou para uma consultoria sobre o assunto e revivi lembranças de oito anos atrás. Naquela época de efervescência, as empresas começaram a exigir de suas agências de publicidade ações que contemplassem a nova mídia. As agências, por sua vez, não faziam idéia de como lidar com isso, porém não podiam falhar com seus clientes. A solução? Contratar os principais entendidos do mercado – afinal, em terra de cego quem tem um olho é rei – e criar uma “filial” digital da agência para atender esses projetos.

Passados alguns anos, o mercado web foi à bancarrota e, em pouco tempo, todas essas divisões digitais tiveram suas operações encerradas. Entretanto, o digital não abandonou as agências de publicidade.

Elas perceberam que o correto não é criar uma divisão digital, mas sim fazer com que o digital permeie os departamentos da agência de forma transversal. Afinal, a nossa sociedade e a nossa realidade funcionam assim. Não somos digitais apenas às quartas de manhã ou às sextas à noite. O nosso cotidiano é permeado pelo digital; ele se mistura e se confunde com as nossas vidas.

Após esse entendimento, temos agora uma única criação publicitária que compreende a necessidade do cliente e apresenta a ele soluções às vezes analógicas, às vezes digitais, uma combinação das duas ou o uso de ambas em uma estratégia complementar.

Déjà vu

Apesar desse histórico, tudo está acontecendo de novo. A bolha da vez é a web 2.0. As empresas estão sentindo que a participação de usuários em blogs, sites e comunidades virtuais interferem sim na imagem e na economia real da corporação.

Para monitorar esse movimento, a solução natural é apelar às agências de comunicação. Entretanto, a maior parte delas não sabe ainda como lidar com tudo isso. Por isso, elas estão caindo no mesmo erro das agências de publicidade nos idos de 2000 e criando seus departamentos digitais.

A minha recomendação durante a consultoria foi justamente na contramão desse movimento: contrate um profissional sênior e digitalize sua agência ao invés de criar uma ramificação.

Para um crescimento sustentável e em consonância com a realidade, as empresas de comunicação precisam, aos poucos, fazer com que os seus departamentos já existentes incorporem zeros e uns. Isso pode ser feito em sessões de counseling com a alta gestão, treinamento das equipes, palestras internas com profissionais e estudiosos da área, criação de grupos para o intercâmbio de conhecimento, valorização da inovação e a promoção de debates regulares entre os funcionários.

Além de melhorar o clima interno, essa estratégia faz com que a empresa não perca os anos de experiência pré-digital acumulados pelos seus funcionários. O papel desse “empregado-guru” será o de canalizar toda a expertise em comunicação das equipes da agência para o mundo digital. Afinal, apesar da ubiqüidade da tecnologia atual, o ser humano e as empresas ainda querem – simplesmente – comunicar.

(Andre de Abreu)

Digital Age 2.0: o dilema da super-exposição da marca, do produto, da pessoa

Mais uma vez as idéias dos palestrantes convergiram durante o Digital Age 2.0. Falo agora de Seth Godin e Danah Boyd que seguem no mesmo rumo quando discutem o uso das redes sociais como um inevitável espaço de exposição. Conseqüentemente, caímos na conhecida discussão entre público e privado, bastante explorada por autores do campo da Comunicação como Pierre Bourdieu. Vejam o que dizem Seth e Danah, cujas idéias são aplicáveis a produtos, marcas, idéias, pessoas, grupos, enfim, a qualquer entidade que esteja envolvida numa ação ou ambiência 2.0.

Sobre a privacidade exposta, Danah Boyd afirmou: “Seja público por defaut e privado quando necessário“. É um conceito forte, mas coerente com a lógica das redes sociais, já que em qualquer site desse tipo é básica a inserção de um significativo volume de informações pessoais (ou específicas no caso de produtos e marcas) verdadeiras, reais. O resultado desse exercício de exposição pública (ou de coletivização do privado para ser mais “conceitual”) é que as redes sociais constituem-se naturalmente numa audiência segmentada, dirigida e com potencial de escalabilidade preciosos para o mercado anunciante. Portanto, é possível inferir que ao participar de redes sociais (uma ação voluntária e autônoma por parte do usuário) se autoriza a recepção de mensagens de cunho comercial, publicitário ou promocional externas à própria rede.

Danah Boyd faz o alerta, mas reforça a segunda parte de sua frase: “seja privado quando necessário”. Ao mesmo tempo se as redes sociais são públicas elas possuem mecanismos de privacidade totalmente controlados pelo usuário. Sentiu-se invadido em sua privacidade? Acione as ferramentas!

Seth Godin oferece explicações bastante objetivas para se enfrentar o paradoxo entre a super-exposição e a super-proteção. Especialmente para o caso de produtos e marcas interagindo com usuários 2.0, Godin recomenda posicionamentos extremos como solução de sobrevivência.

Uma representação invertida da curva normal é utilizada por Godin para didatizar sua visão: a presença de uma marca ou produto na rede hoje passa por escolhas entre participar do grupo pioneiro de empresas que aceitam as regras do mundo 2.0 ou compor a massa que ainda funciona em ritmo de clicks, visitantes únicos, anúncios publicitários e similares.

Ao escolher um posicionamento vencedor, a empresa tem duas opções: a ubiqüidade ou a super-exposição, significando participar ativamente de todas as iniciativas disponíveis do mundo 2.0, abrindo conteúdos e informações, oferecendo downloads, agindo como mediador entre os participantes de redes, por exemplo; ou a opção da exclusividade (ou scarcity, no dizer de Godin) onde o perfil e o produto disponibilizados não podem ser replicados e remixados pelos participantes das redes sociais, mas mesmo assim, permanecesm desejados. Não escolhendo os extremos da curva normal, para Seth Godin, é cair na vala comum dos perdedores.

Em tempo:

Fiz um exercício pessoal de meu posicionamento como usuária de redes sociais e fiquei um tanto surpresa com os primeiros indícios…Estaria eu mais para ubíqüa ou para escondida? Interrompi o processo na etapa de listagem de atividades 2.0: blogs, redes, micro-blogs, sites, etc, etc. já que não fazia idéia do tamanho de meu envolvimento. Se continuasse, iria partir pro “delete identity“…..Vale a pena! Aliás entrei nessa inspirada pela máxima de Boyd, pelo gráfico do Godin e pela sugestão da Dani Bertocchi em criar um ClaimID prá gente. Divertido.

(Beth Saad)

Digital Age 2.0: o reinado do usuário, reflexões a partir de Lessig, Seth Godin, Danah Boyd e mais


Neste começo de outubro, estivemos (eu, Daniela, e a professora Beth Saad, co-autora deste blog) no Digital Age 2.0. Foram dois dias intensos de palestras e debates sobre comunicação digital.

A conferência tinha como principal objetivo discutir e entender o futuro dos negócios tendo a Internet como plataforma de relacionamento.

As apresentações mais esperadas eram de Lawrence Lessig, Seth Goldin e Danah Boyd para abordarem, respectivamente, questões de direitos autorais, marketing online e redes sociais.

Participamos do encontro à convite da organização do evento. Outros blogueiros também foram convidados e, como nós, compareceram por lá como imprensa. O que foi bem bacana. Os colegas deixaram no Twitter interessantes registros sobre o evento.

Quem acompanha Alex Primo, Pedro Markun, André Deak, Renato Targa, Juliano Spyer, Ricardo Cabianca, Tiago Doria, Cris Dias, entre outros, pôde conferir estes apontamentos online. Também twitei, mas foi de leve, a Beth Saad acabou micro-blogando mais.

A despeito dos apontamentos que já foram registrados ao longo do evento, e também dos vídeos online, eu e Beth gostaríamos de consolidar algumas impressões e reflexões aqui no Intermezzo sobre o que foi dito por diversos especialistas e gurus durante a conferência. Acreditamos que isso será útil sobretudo aos que não puderam comparecer ao evento e que nos perguntaram: O que puderam apreender do Digital Age 2.0? Como este é um post elaborado a quatro mãos, a partir de agora escreveremos no plural. Vamos lá!

  • O USUÁRIO É O REI

Se pudéssemos resumir o discurso da conferência em apenas uma frase, teríamos: “Curve-se à logica digital“. O que, em outras palavras, significa render-se ao poder do usuário. Todo o evento — e notemos que foi um encontro para pessoas de negócios: estrategistas de mídia, gerentes de produtos, anunciantes, marketeiros, publicitários e afins — girou em torno deste discurso: o usuário é quem manda, não você.

Diversos especialistas insistiram nesta idéia: se você quiser vender, anunciar, publicitar, comunicar, conversar e convencer a sua “audiência” e o se “consumidor” trate de entrar rapidinho na lógica do usuário.

O tom da conferência foi que o usuário não está nem aí para empresas, mídia tradicional, direitos autorais, nada. Ele sacou que tem o poder de blogar, twitar, conversar, criar suas redes; fazer seus vídeos e podcasts; interferir, questionar, reclamar, criticar, parodiar. 

Juntos, formam sistemas auto-organizáveis. Sem você, sem a sua ajuda, sem a sua permissão. E sem pagar por isso.

Voltando dez anos para trás no mundinho dos pundits da web, é bom lembrar que a palavra de ordem era “the content is the king”. Ficou tudo na palavra, já que a ordem não foi seguida por quem era de direito. A banda passou. Hoje, o rei é o usuário. Concordamos. Reinando absoluto, independente e autônomo na rede. Quem quiser (empresas, mídia, operadoras de celular, produtores etc.) que corra atrás deste trio elétrico. Senão, já era.

Se você não entrar nesta lógica,
você será o ´estranhinho` da turma

Danah Boyd.

  • QUE LÓGICA É ESSA?

O que de fato as pessoas fazem em redes sociais? “Nada”, disse Danah Boyd, complementando, “Estão conversando, brincando, fortalecendo as amizades, se reafirmando como indivíduos”. Danah comentou que as pessoas entram em redes para encontrarem quem já conhecem. Eventualmente, fazem novas amizades. Mas, fundamentalmente, as redes servem para fortalecer relacionamentos que se já iniciaram fora dela.

A rede funciona pela persistência (as pessoas deixam registrado em “scraps” e “testimonials” o quanto gostam da outra, por exemplo), replicabilidade e escala (isso se pulveriza em outras redes) e também por busca (“searchability”).

Aliás, ficou claro que é pelas redes que se dá boa parte da inclusão digital da qual tanto falamos. As classes C e D estão sendo introduzidas ao mundo digital via redes como o Orkut, como mencionado na mesa moderada por Marcelo Coutinho, diretor do IBOPE Inteligência.

Todos querem atenção. E quem define esta dinâmica são os próprios usuários. O controle está nas mãos deles. Sobre esta questão do poder e controle, vale a pena consultar também o novo livro de Ronaldo Lemos, “Tecnobrega: o Pará reinventando o negócio da música“, lançado durante a conferência e já disponível gratuitamente para download.

O fã precisa da banda para definir
a sua identidade para os amigos.
A banda precisa do fã para aumentar
a sua popularidade.
É assim que o MySpace cresce

Danah Boyd.

  • ISSO É MAU? NÃO, É REMIX.

Remix parece ser uma das palavras-chave da experiência 2.0. A (super profissional) palestra de abertura com Lawrence Lessig, o criador do Creative Commons, derrubou as fronteiras da propriedade intelectual, da autoria individual, pregando a necessidade de uma revisão mundial da legislação na área já que a essência da geração de conteúdo 2.0 baseia-se na remixagem de conteúdos disponíveis na própria rede, por meio de ferramentas e aplicativos também ali disponíveis.

Assim, Lessig tenta nos convencer de duas necessidades: primeiro, é preciso adequar as leis de autoria à realidade do mundo digital (nenhuma grande novidade aí). E, em segundo lugar, e aqui está o ponto mais interessante, é que as empresas precisam entender que é bom que os usuários remixem produtos, conteúdos e idéias. Porque o remixagem agrega valor ao produto.

A respeito deste valor, Lessig e Seth Goldin dialogam em concordância. Lessig acredita que os direitos autorais devam ser liberados (ainda que parcialmente), como já podemos fazer via CC. O remix deve ser formalmente permitido. “No mundo 2.0, não adianta gritar para as pessoas o que elas devem comprar. Elas não ouvem. É melhor construir junto”, alinha Seth.

Exemplos de remix? Vejam esta paródia da campanha da Dove no YouTube. Ou então o Bush Blair Endless Love.

“O seu produto é marketing
de si mesmo.
Quanto mais remix,
mais valor terá”
Seth Godin

  • ELOS FORTES E FRACOS

O DigitalAge2.0 2008 apresentou um conjunto de temas que refletiu a atual cadeia de valor da mídia social ou da web 2.0. Um interessante resultado final do evento, analisando as palestras e mesas de debates, foi uma visão dos elos fortes e dos fracos dessa cadeia. Sendo o mundo corporativo tradicional o elo mais fragilizado. Ao contrário dos usuários da rede, especialmente aqueles engajados em websites de redes sociais.

Será que isso ficou claro para as empresas? Parece que não totalmente. Exemplo: no debate sobre vídeos vimos o representante da Globo.com ainda referenciando o usuário como “consumidor” e o produto-vídeo como uma narrativa linear para “a massa” e sem ou pouco valor quando produzido de forma amadora (fora de âmbitos profissionais).

Mas também vimos produtoras como a Colméia (Enxame.tv) com uma proposta inovadora e mais afinada com o mundo digital. “Fazemos experiências interativas (de marca ou não) para distribuir histórias. Para construir relacionamentos. Para divertir e entreter. Quando necessário, criamos aplicativos, remixamos ou desenvolvemos tecnologia para isso”, disse Eduardo Camargo, sócio e produtor executivo da empresa.

Reparem no slogan da empresa: “enxame não é um lugar, é um movimento”.

Houve também os exemplos de negócios hiper-diferenciados como a Camiseteria que produz e vende camisetas a partir da contribuição de designers que postam seus modelos no site e os têm cotados e avaliados pelos usuários-compradores. E que, no mais, criou a sua Twiteria. Lá, os usuários elogiam e criticam publicamente o negócio.

“Gilberto Gil faz a celebração
do remix no Brasil”
Lawrence Lessig

  • O RESUMO DA ÓPERA?

O movimento da mídia social não é uma onda passageira, não é uma nova bolha. Grande chance de ser irreversível.

(Beth Saad e Daniela Bertocchi).