Reflexões sobre jornalismo na Compós 2014

{Belém, PA – UFPA} Os debates no GT de Jornalismo da Compós 2014 foram de altíssimo nível; muito bom estar ao lado de gente boa e competente que pensa profundamente o jornalismo (como Tattiana Teixeira, Ronaldo Henn, Fernando Resende, Suzana Barbosa, Moreno Osório,  Beatriz Becker, Mônica Machado, Ana Cláudia Peres, Diógenes Lycarião, Rousiley Maia, Maíra Sousa, Marcos Paulo da Silva, Naara Normande e Yuri Almeida).

Discutimos jornalismo online, critérios de noticiabilidade, o papel do testemunho nas narrativas jornalísticas, as crises no jornalismo, a mídia ninja, jornalismo e redes sociais, curadoria no jornalismo e mais. Os artigos estão já disponíveis nos Anais do evento.

O  paper que apresentei sobre jornalismo digital recebeu críticas lindas e proveitosas; além disso tudo, tive a chance de estar presencialmente com pesquisadores que admiro muito e ainda a oportunidade de conhecer outros que passei a admirar. Como um presente dos céus, matei a saudade de velhos amigos. No último dia em Belém, uma surpresa: um passeio num barco Hacker no rio Guamá, na Amazônia paraense, com direito a interagir com a comunidade ribeirinha, comer cacau e dar umas braçadas na água.

Mais uma leitura recomendada: Tendências no Jornalismo, mantida pelo colega Moreno Osório.

GT de Jornalismo da Compós 2014 - UFPA - Belém, PA.
GT de Jornalismo da Compós 2014 – UFPA – Belém, PA.
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GT de Jornalismo da Compós 2014 – UFPA – Belém, PA.
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GT de Jornalismo da Compós 2014 – UFPA – Belém, PA.
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GT de Jornalismo da Compós 2014 – UFPA – Belém, PA.
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Para que criamos estratégias digitais no jornalismo?

Para conseguir mais likes, shares e cliques (e ganhar rios de dinheiro). Certo? Não, não somente. Quem desenha estratégias digitais para o jornalismo deveria querer um pouquinho mais que isso. Como ter o compromisso de fazer circular pela rede conteúdos e serviços relevantes (e dignos) para a sociedade. Como diz  Carlos Chaparro, o jornalismo lida com a transformação da realidade — portanto, quaisquer estratégias de visibilidade deveriam considerar tal condição.

Para saber mais: Jonathan Colman explica aqui a diferença entre estratégia de conteúdo e estratégia de marketing (além de fornecer uma robusta bibliografia sobre o tema). Paul Bradshaw fala um pouco sobre como construir estratégias online para o jornalismo neste texto aqui. Também trato do assunto na minha tese doutoral, ressaltando que o desenho das estratégias de conteúdo precisa passar pelo bom entendimento de várias disciplinas, entre elas: experiência do usuário (UX), arquitetura de informação pervasiva (ubíqua), lógica computacional e consumo informativo em redes sociais.

Como a autoridade é reconhecida na rede? Um estudo sobre liderança na rede social Facebook (USP, 2010)

BERTOCCHI, Daniela; SILVA, Helio & Linares, Nicolás Llano. Como a autoridade é reconhecida na rede? Um estudo sobre liderança na rede social Facebook. Trabalho apresentado para a disciplina Recepção, Mídia e Persuasão (CRP5980F3/5),ministrada pelo Prof. Dr. Leandro Leonardo Batista, na Escola de Comunicações e Artes da Universidade de S. Paulo, 15 de Dezembro de 2010.

Colaboração e competição online: Onde está o balão vermelho?

Estava folheando a revista Época Negócios dessa semana quando encontrei um pequeno texto que falava de uma experiência com redes sociais realizada pelo Darpa. Pesquisas desse tipo acontecem aos montes. Mas achei curisamentew interessante o Darpa fazer algo neste sentido.

Para quem não sabe, o Darpa é a agência de pesquisa militar dos EUA. Está ligado ao Pentágono. A sigla significa “Defense Advanced Research Projects Agency” — algo como “Agência de Pesquisas em Projetos Avançados”.

Como bem lembrou André de Abreu nos comments, foi o Darpa que criou em 1969 a ARPANET — primeira rede operacional de computadores à base de comutação de pacotes, ou seja, a precursora da nossa Internet.

Segundo informa a revista, o experimento serviu para o Darpa entender melhor os mecanismos de colaboração online.

A experiência militar com redes sociais foi a seguinte:

-> O pessoal do Darpa instalou 10 balões atmosféricos vermelhos em diferentes cidades dos Estados Unidos.

-> Depois, o órgão divulgou que pagaria 40 mil dólares para a primeira pessoa (ou equipe) que informasse com precisão a latitude e longitude de cada balão.

-> Os interessados em ganhar o prêmio deveriam recorrer ao Twitter, Facebook e afins (também sites e aplicativos diversos) para descobrir o ponto geográfico exato dos objetos.

O que aconteceu?

Bem, entraram na competição uma equipe do MIT, um grupo de cientistas de Harvard e outros 4 mil competidores.

Depois de muita apuração e checagem de informações, a equipe do MIT venceu: em pouco mais de 8 horas conseguiu dizer exatamente onde estavam os dez balões vermelhos.

Havia balões em regiões pouco populosas — como o deserto do Arizona — e outros em cidades mais movimentadas, tipo São Francisco.

Após o concurso, o Darpa falou à imprensa sobre o evento. Isso foi em dezembro do ano passado. Há notícias no NYT, Guardian e CNN….

Compilei as mais interessantes conclusões, vejamos:

  • A colaboração em rede social tende a funcionar melhor em casos pontuais, com custo zero e que conduzam a uma solução verificável. Exemplo? Localizar bombas e evitar ataques terroristas. As redes podem nunca servir para encontrar a cura do câncer, por exemplo. Além disso, têm força em momentos de crise. Ou seja, em situações agudas.
  • A colaboração desinteressada dos usuários é geralmente exceção, não regra. O MIT, por exemplo, se comprometeu a remunerar os colaboradores que fornecessem dados corretos sobre os balões. O grupo usou um esquema de “coleta em pirâmide“: pagamentos diferentes de acordo com a proximidade física da pessoa com o balão. O sujeito que avistasse, com os próprios olhos, um balão vermelho do Darpa e enviasse a localização para o MIT poderia ganhar até 2 mil dólares. O Darpa acredita que eles foram os vencedores por conta deste “estímulo” financeiro.
  • Outro ponto que o Darpa ressaltou é que muitos usuários plantaram informações falsas nas redes sociais com o intuito de atrapalhar os concorrentes. Os competidores mais bem sucedidos foram os que criaram hierarquias para julgá-los. Os mais confiáveis eram os que vinham de fontes conhecidas ou mais próximas.

É claro que o Darpa queria saber a rapidez com que as pessoas podem usar as redes sociais online para resolver um problema de âmbito nacional. Por isso, vale muito a pena ficar de olho em experimentos militares e em suas conclusões. Aliás, o Darpa está no Twitter… @darpa_news

Mas eu pergunto: é possível generalizar tais conclusões?

A twitter litteracy de nossas celebridades e gurus: cada um no seu quadrado?

Mais uma vez exponho neste Intermezzo a questão sobre o uso descontextualizado de ferramentas digitais de comunicação. É a vez do Twitter. Não tenho qualquer pretensão de criar aqui um discurso “dita regras” ou “ciber-cri-cri”,  já que a compreensão e o uso de uma mídia tem tudo a ver com a forma social na qual se insere. Ou seja: cada um no seu quadrado? Nem tanto…

Seja por obrigação profissional e acadêmica, ou ainda por vocação de nosso blog, cabe criticar, refletir, discutir, dialogar sobre os temas de comunicação digital. Blogs, redes sociais, jornalismo online, carreira são apenas alguns pontos que recentemente pautamos aqui.

A recentíssima migração para o twitter de figuras deste Brasil que podem ser categorizadas (termos cunhados pela própria mídia) como celebridades, gurus, comunicadores influentes, comunicadores emergentes, pioneiros, entre outros, tem chamado a atenção: alardeiam no ciber e no papel números recordes de seguidores, “conversam” com essa massa numérica e distribuem “olás” e “obrigados” rede afora. OK! Novamente cada um no seu quadrado?

Nem tanto, já que esse grupo de tuiteiros neófitos têm em comum, quase sempre, origem ou atuam no mundo da comunicação e, portanto e supostamente, são referência para uma enorme quantidade de pessoas. E, analisando algumas celebrities timelines no twitter, são poucas as que exercem seu papel de influenciador corretamente com relação ao twitter.

Antes de tudo, que tal retormarmos o que é e para que serve o twitter? Falamos de uma ferramenta típica para ambiências digitais em formato de rede social, caracterizada como microblog por incorporar a postagem como forma expressiva, cometários e disseminação (o RT) como forma de socialização e interação. Tudo isso com o diferencial de objetividade de conteúdo (140 caracteres) e inclusão de hiperlinks, resultando num poderoso objeto social em tempo real, que leva seguidos e seguidores a um proceso de nagevação contextualizada na web.

Entender e aplicar pelo menos uma parte disso é o que chamo de twitter litteracy. Claro que não se pode exigir de qualquer tuiteiro a aplicação irrestrita do conceito proposto pela ferramenta. No mínimo, utópico. Mas, há que se refletir sobre a sistemática transposição de conceitos e indicadores da “velha mídia” que as twitter celebrities tupiniquins praticam e acabam por virar referência de como usar esta incrível rede social.

Acabei por criar uma listinha de pequenos desvios de uso do twitter que merecem discussão por parte do leitores do Intermezzo. Penso que cada um dos itens é um novo post/comentários em potencial:

  • Foco constante na ampliação da quantidade de seguidores, não importa quem são, como e de onde foram capturados. Algo parecido com índices de audiência e de circulação de tempos quantitativos de mensuração.
  • Extrema dificuldade em produzir algo coerente e útil para os seguidores em 140 caracteres. Algo de “torpedos” aparece como resultado.
  • Culto ao ego e respectivas peripécias vida afora. Sem falar de egos que rapidinho viram “nós” e portadores da opinião coletiva. Algo de “narciso” cai bem.
  • Uso da rede de seguidores (que sempre deve ser grande como símbolo de sucesso…) para realizar enquetes nonsense, fazer propaganda velada ou explícita de produtos, serviços, eventos e que tais. Algo de comercial em causa própria  parece adequado.
  • Disseminação  do mau uso da mal-tratada Língua Portuguesa: pontuação, erros de grafia, concordância, e similares. Algo de irresponsável é cabível.
  • Desagradável tendência em alardear que o twitter é um grande brincadeira ou parque de diversões. O momento de descontração, lazer e tornar-se igual por parte da celebridade ou do guru. Algo de imaturo fica no ar.
  • Raríssima condição para a proposição de objetos sociais em seus posts. Por acaso algum link, alguma foto, algum ponto de ancoragem que gera conhecimento foram propostos para os seguidores?  Algo de…..

Claro  que poderia  continuar listando, ou criticando. Mas, gostaria de propor aos leitores uma pausa prá olhar a cena e sermos razoavelmente criteriosos em nossa função comunicacional.

A grande maioria dos pontos indicados já ocorreu em momentos anteriores do mundo ciber, desde a descrença ancestral dos profissionais no potencial de comunicação da web, até descaracterizações mais recentes como no caso dos blogs (já discutido no Intermezzo). O que decepciona é que, quase sempre, influentes gurus da comunicação e mobilizadores das massas, preferem usar errado ao invés de buscarem aprender, conhecer e exercer adequadamente o uso de uma nova mídia.  Fica mais fácil bagunçar e manter o status quo do que se dar ao trabalho de fazer do modo correto. Afinal, o que importa é o volume de uma audiência em aplauso embevecido, e não a qualidade da mensagem, ainda que para poucos multiplicadores.

Ufa! Breve desabafo pessoal (portanto, sem links e referências autorais) neste último post de 2009.

Merry, merry Christmas e and a very happy new year!!!!!!!!

Em tempo: esse post tem caráter genérico e, propositadamente, não cita qualquer identidade no twitter que venha a contextualizar a opinião.

(Beth Saad)

Digimétodos ou a metodologia da pesquisa em tempos digitais

O chavão “não se pode navegar em novos mares com mapas antigos” talvez caiba na abertura desse post. Com os fenômenos comunicacionais se reconfigurando sob a mediação das mídias digitais e das redes sociais os métodos tradicionais de pesquisa talvez não sejam mais válidos ou não possam mais ser utilizados da maneira usual.

As técnicas de etnografia continuam válidas ao analisarmos redes complexas como Facebook ou Twitter? Pensando nisso, reproduzo aqui uma pequena bibliografia copilada pela professora Maria Immacolata Vassalo de Lopes sobre webmétodos; são autores que buscam justamente uma nova metodologia da pesquisa em comunicação levando em conta as mudanças que o digital trouxe para esse campo do conhecimento. Por isso eu prefiro o termo digimétodos. Afinal, eles são válidos não só para a análise do ambiente web, mas também para outros cenários digitais, como o do celular e dos videogames:

(Andre de Abreu)

Cuidado com o especialista em redes sociais

A história já provou: a novidade atrai os novos profetas. Não que mídias sociais sejam novidade, afinal, aquelas que reúnem jogadores de videogame já existem e já são exploradas comercialmente há quase uma década. Mesmo assim, não podemos negar o zunzunzum atual em torno delas.

Na esteira desse movimento, surgiram nos últimos meses dezenas de empresas e consultores “especialistas” em redes sociais. Entretanto, o que se tem visto até o momento são ações e conselhos baseados no achismo ou no “feeling”.

Se olharmos para trás, iremos encontrar algumas saídas que nos tirarão deste empirismo. Na sociologia, o campo que dá conta deste assunto é o da Análise de Redes Sociais (SNA, em inglês). Ele se dedica a propor métodos para a mensuração das relações de poder e influência, identificar pontos de concentração das informações, enfim, trata-se de uma área multidisciplinar – e, por isso, fascinante – que envolve, além da própria sociologia, estatística, matemática, comunicação e tecnologia.

Conhecer um pouco mais sobre SNA nos leva a questionar certas ações propostas por esses profissionais que, no fundo, não oferecem embasamento ou indicadores claros que permitam mensurar a real eficácia de uma ação de comunicação realizada neste tipo de ambiente.

Por exemplo, um dos melhores perfis para realizar ações no Twitter seria o de Marcelo Tas. Afinal,  ele é dono de uma rede com mais de 280 mil seguidores. Logo, qualquer mensagem chegará a praticamente todos os rincões da “twittersfera”. Entrentanto, aplicando a metodologia de mensuração da SNA, veremos que isso não é verdade. Como a maioria dos seguidores de Tas são atraídos pela sua popularidade na TV ou por matérias na imprensa sobre o Twitter, essas pessoas não têm muitos seguidores de segundo nível. Basta conferir a lista de followers do jornalista para verificar o quão difícil é encontrar um perfil que tenha mais de 50 seguidores.  Resumindo, uma mensagem difundida por ele perde força já na primeira camada da rede. Por outro lado, perfis com menos seguidores de primeiro nível, mas com uma rede de segundo nível mais concentrada, têm potencial e eficácia de comunicação muito maiores.

No exemplo hipotético a seguir, podemos observar isso. Suponhamos que Tas possui 6 seguidores e cada um deles é seguido por outras 2 pessoas. Se toda a rede de primeiro nível retuitar o jornalista, a mensagem original chegará a 18 usuários. O segundo usuário tem menos seguidores de primeiro nível (3), porém eles possuem uma rede de segundo nível muito mais forte, com 8 seguidores cada. Logo, se uma mensagem for retransmitida por toda a rede, ela chegará a 27 pessoas, ou seja, 50% a mais em relação à Tas.

rede_tas

A partir desta observação, quem você sugeriria para uma ação em redes sociais? Por esse motivo, na próxima vez que for contratar um consultor ou uma empresa “especializada” em redes sociais, pergunte como andam os conhecimentos em SNA.

Para quem quer se aprofundar em comunicação na redes sociais sugiro conhecer inicialmente o trabalho da Orgnet e comparar com aquilo que é oferecido no Brasil pelas ditas agências 2.0. Em seguida, vale uma parada no site da International Network for Social Network Analysis. Por fim, indico a leitura do e-book Introduction to Social Network Methods, que oferece uma bela visão sobre o tema. Com isso, você estará bem munido para encarar de forma crítica os argumentos e as proposta superficiais desses novos profetas da web 2.0.

(Andre de Abreu)