O desktop é o novo impresso

A chefe de operações no Financial Times, Lisa MacLeod, destacou aqui que o produto jornalístico que a Redação constrói para ser acessado via tela do computador de mesa é o novo jornal impresso (“desktop is becoming the new print”). No caso do FT, mais de 60% dos assinantes chegam ao jornal pelo celular, disse ela. No Brasil, o cenário não deve ser muito diferente, já que o celular se tornou o principal meio de acesso à internet no país (segundo um estudo realizado pela F/Nazca em parceria com o Datafolha, agora em 2014). Vale ressaltar que a leitura de jornais diariamente é hábito de apenas 6% dos brasileiros – como aponta a Pesquisa Brasileira de Mídia 2014.

“A arma secreta para o jornalismo na era digital? O papel!”

Esse é o mote que a WAN – Associação Mundial de Jornais coloca em debate na 11th. Readership Conference que ocorre nesse momento em Amsterdã, Holanda, reunindo executivos de jornais de todo o mundo para pensar em estratégias que ampliem o índice de leitura dos jornais, tanto na plataforma impressa quanto na digital.

Acompanhando as declarações dos participantes, vemos que o velho debate entre meios impresso e digital ainda está firme e forte, e a preocupação com a sobrevivência do meio papel é central entre os publishers mundo afora. Segundo a WAN os jornais são, hoje, uma ilha de tranquilidade diante do caos digital e uma “força emergente ” para a indústria da mídia, e que merecem atenção. O discurso de abertura da conferência, proferido pelo colunista e autor William Powers, veio recheado de afirmações polêmicas para os defensores mais ardorosos da mídia digital. Traduzo a seguir algumas delas:

William Powers
William Powers

O mundo precisa – realmente precisa – daquilo que os jornais fazem. A mídia digital possui vantagens bem conhecias, mas as pessoas geralmente ignoram o lado bom dos jornais. As empresas jornalísticas deveriam explorar melhor estas vantagens qualitativas. Entre elas, o jornal impresso tem a capacidade de liberar a mente para o livre pensar”.

“A maior força do meio impresso é que ele possibilita a mente ‘instalar-se’ num estado de paz interior que nos faz pensar melhor. Tal estado é mais difícil de ser alcançado quando estamos lendo um meio digital, onde a informação é infinita e a possibilidade de executarmos tarefas simutâneas nos tira a atenção. Na internet não existe começo e fim”.

“O fato do papel estar desconectado do ‘grid digital’ não é um atributo negativo. É a arma secreta do jornal, favorecendo sua sobrevivência. Em um mundo multi-tarefa, onde foco é algo difícil, acredito que o meio papel seja um ponto de fuga para a conscientização e a alternativa para a aceleração das telas“.   

Por outro lado…

O mesmo Congresso trata de temas opostos. O representante da Mobile Europe da Reuters, Ilico Elia, sugere que as empresas de mídia deveriam considerar as plataformas móveis como parte integrante de suas estratégias e não como um empreendimento paralelo. Segundo ele: “a primeira ação: disponibilize seu conteúdo para o telefone celular”.

Alguns outros palestrantes são mais ousados e afirmam que num futuro breve o texto já não será tão necessário para expressar a informação. O Diretor de Planejamento Estratégico da Agência France-Presse, Eric Scherer acredita que gráficos e infográficos explicam muito melhor a informação para usuários de ritmo de vida acelerado e que utilizam plataformas móveis, por exemplo.

Bem, fica aqui apenas uma amostra do embate. Penso que não existe esse processo de papel é melhor ou meio digital vai predominar. Cada um deles têm vantagens e desvantagens, possuem seus espaços próprios mas, infelizmente, o que ainda vemos são discussões sem fim na defesa de um e de outro.

(Beth Saad)

Rede social protegida no Wall Street Journal

Fiquei sabendo via Travessias Digitais que o WSJ.com bateu recordes de tráfego recentemente. A avalanche de usuários veio por conta da crise financeira, mas, pelos vistos, eles permaneceram no site devido ao novo e impecável desenho das páginas. O editor do jornal, Alan Murray (foto), abordou este assunto em um entrevista, em vídeo, realizada para Andy Plesser, da Beet.tv.

Na conversa, Alan também fala da lógica que presidiu à criação de uma “rede social protegida”, na qual só assinantes do jornal, usando o seu nome real, podem entrar e participar.

Alan explicou que o WSJ já notou, desde já algum tempo, que há um grupo de leitores do jornal bem qualificado, engajado, que lê o jornal diariamente; e que este grupo mais “especial” teria, na concepção deles, condições de contribuir com as discussões apresentadas pelo publicação em papel. Para isso, precisariam de um espaço próprio para esta conversação.

O WSJ.com criou então um espaço online para isso, chamou de Journal Community, e determinou que as  contribuições devem ocorrer apenas entre os assinantes do jornal,  sem anonimato. Os usuários-assinantes, assim, aparecem com os seus nomes reais. “Nós forçamos esta “real name policy””, ele disse, “para elevar o nível da conversa”. Segundo o editor, está funcionando bem. Existem, no momento, algumas centenas de assinantes por lá. Ele falou que é um espaço mais “clean” (no sentido de não ter sujeira, creio eu).

O amigo Helder Bastos, do Travessias, disse que “A ideia de criar comunidades à volta dos ciberjornais não é nova, mas parece estar a ganhar novo fôlego. Talvez por causa do sucesso galopante das grandes redes, como Facebook, MySpace, Hi5 e outras”.

(Daniela Bertocchi) 

 

home page do WSJ em 24 de Setembro de 2008
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