Para que criamos estratégias digitais no jornalismo?

Para conseguir mais likes, shares e cliques (e ganhar rios de dinheiro). Certo? Não, não somente. Quem desenha estratégias digitais para o jornalismo deveria querer um pouquinho mais que isso. Como ter o compromisso de fazer circular pela rede conteúdos e serviços relevantes (e dignos) para a sociedade. Como diz  Carlos Chaparro, o jornalismo lida com a transformação da realidade — portanto, quaisquer estratégias de visibilidade deveriam considerar tal condição.

Para saber mais: Jonathan Colman explica aqui a diferença entre estratégia de conteúdo e estratégia de marketing (além de fornecer uma robusta bibliografia sobre o tema). Paul Bradshaw fala um pouco sobre como construir estratégias online para o jornalismo neste texto aqui. Também trato do assunto na minha tese doutoral, ressaltando que o desenho das estratégias de conteúdo precisa passar pelo bom entendimento de várias disciplinas, entre elas: experiência do usuário (UX), arquitetura de informação pervasiva (ubíqua), lógica computacional e consumo informativo em redes sociais.

Ainda sobre blogs …mas, para que servem mesmo?

2006042700_the_blog_345Na esteira do buzz sobre o Fatos e Dados, da Petrobrás tive acesso a um interessante conjunto de opiniões e posições das mais diversas fontes – jornalistas, pesquisadores, profissionais de mercado, curiosos, entre outros. Disso tudo ficou muito claro que o calor das discussões acaba por deixar de lado a essência do tema: o uso do blog como uma ferramenta de mídia social.

Pelo lado dos jornalistas e das empresas jornalísticas a discussão ficou centrada na relação fonte-veículo e também no uso do blog como mídia. Os profissionais de comunicação tinham por foco a quebra do paradigma da mediação e a possibilidade concreta de uso das ferramentas de mídia social para isso, mas com uma sucessão de dúvidas sobre como e para que. Pesquisadores e a academia mantiveram-se à distância, como usual. Usuários e blogueiros, no mínimo, fizeram a festa. Tais opiniões refletem a diversidade de compreensão dobre o que na realidade são e para que servem os blogs.

Claro que não vou aqui nesse Intermezzo discorrer sobre as origens do blog nos diários pessoais,  sobre a quantidade de autores que discutem cientificamente o  tema (sim, blogs há tempos são objeto de pesquisa!) ou sobre seu uso nos mais diferentes campos de atividade. Existem muitas fontes para isso na própria web, prá começar. Gostaria, de indicar dois pontos-chave que condicionam o uso (adequado ou não) do blog em nossa rotina comunicacional:

1. A confusão entre plataforma de publicação e ferramenta de mídia social

Desde suas origens o blog  trouxe uma característica muito atraente para qualquer usuário da web: a possibilidade de publicar e estar presente na grande rede, gratuitamente e sem esforços técnicos de especialista. Com isso, plataformas como WordPress e Blogger possibilitaram a existência dos 133 milhões de blogs registrados, segundo o último relatório sobre a Blogsfera do Techoratti. Com isso, surgem em ritmo de pãozinho quente os mais diversos tipos de propostas de conteúdo utilizando esse caminho rápido e fácil de publicação, confundindo o uso social da  ferramenta com uma forma de construir um website. O que temos, em muitos e muitos blogs, são o que chamo de blogsites: uma página na web, que pouco explora as características oferecidas pela plataforma que configurariam o blog como uma mídia social.

Com isso, os posts acabam se transformando em longos textos com tom de press release ou de discurso individualista; comentários inexistem ou parecem construídos; resposta a comentários é algo fora de questão; blogroll entra na lista das incompreensões; nuvem de tags, como assim?;  feed RSS, widgets integradores com outras ferramentas e as APIs mais recentes estão fora de cogitação.

Ok! São muitas as exigências? Talvez, mas se todas essas funcionalidades não forem exploradas parece-me inadequado chamar a página de blog. Que se publiquem milhares de páginas, mas por favor, só vamos chamar de blog aquelas que  honrem o termo. Não tem problema chamar de website. a plataforma não condiciona a denominação.

2. A fetichização do blog

Blogs sempre fizeram sucesso. Daí que criar e alimentar um blog “passou” a ser símbolo de atualidade e contemporaneidade, algo como uma passagem para o mundo 2.0. Seria isso mesmo? As aspas no “passou” são propositais.

Hoje assistimos a uma onda:  o blog do presidente da empresa X, o blog do governo Y, o blog do candidato Z, o blog do Sr. N…..e assim vamos engordando a blogsfera, como se blogs fossem a solução para a presença no mundo 2.0.

Bem, é preciso ir para além da ferramenta e do fetiche. É preciso olhar para a efetividade de um blog. Primeiro, porque blog que é blog dá trabalho, toma tempo e exige envolvimento real do autor: escrever posts, responder aos comentários, manter atualidade e periodicidade, disseminar pelas redes e listas, inserir hiperlinks oportunos, pensar nas formas de ampliação do tráfego, entre outras atividades. Segundo, porque efetividade tem tudo a ver com repercussão, replicação, discussão: características inerentes a um conteúdo de interesse para os usuários/leitores. E, terceiro, porque o blog é apenas uma parte de um processo estruturado, planejado e estratégico de atuação no mundo 2.0.

Na verdade, o blog utilizado  em sua plena capacidade, por assim dizer, deve ser considerado como objeto social: uma ambiênica digital que agrega idéias e opiniões compartilhadas, discutidas e ampliadas por um conjunto de pessoas com um interesse comum, utilizando para isso uma diversidade de ferramentas, funcionalidades e micro-sistemas que facilitam, dinamizame ampliam o processo como um todo. Apenas isso.

E o seu blog, é blog? what-is-a-blog

(Beth Saad)

10o. ISOJ/UTexas – Austin: modelos de conteúdo/negócio alternativos viabilizam o JOL. Parte I

Newspapers, why are you doing this? Don't jump!
Newspapers, why are you doing this? Don't jump!

Os especialistas e editores reunidos no ISOJ foram quase unânimes em apontar os modelos de conteúdo/negócios diferenciados como a viabilização do business digital e, principalmente, como a saída para a indústria jornalística ainda atrelada ao modelo impresso. Palavras como mecenato, empreendedorismo, jornalismo de nicho, conteúdos agregadores e crowdsourcing passam a fazer parte do cotidiano do mercado do JOL.

O painel comandado pelo consultor Steve Outing, que mostrou a foto ao lado para abrir as discussões, iniciou com a seguinte afirmação: o modelo da velha mídia está ultrapassado, e os jornais podem escolher a queda livre no abismo ou partir para modelos “sucessores” e experimentar um outro patamar de negócio, conteúdo e relação com o público.

Outing listou as seguintes características do novo ambiente dos modelos “sucessores”: organizações centradas no digital; conteúdo online gratuito disponibilizado em toda e qualquer plataforma; desenvolvimento de conteúdos pagos para plataformas móvis (iPhone, Kindle, etc. ), conteúdo web premium segmentado, exclusivo e pago; departamento comercial em formato de agência de publicidade; serviços de marketing social oferecidos para a base de usuários cadastrados; parcerias de conteúdo e comerciais com outras mídias; renovação dos executivos da empresa jornalística; e busca de modelos alternativos ao RIA (Rich Internet Applications).

Considerando que as propostas apresentadas são bastante transformadoras e impactantes para uma indústria acostumada a monoplataformas e receitas publicitárias e de classificados baseadas em circulação, destacamos a fala final de Outing, que vai mais além e propõe às empresas informativas “sair prá fora da caixa“, ou seja, olhar o ambiente e seus novos players como um campo de conviência e colaboração.

Outing convida as empressa informativas a pensarem em sistemas como, o GoogleNews, o sistema de classificados proposto pela NAA (National Association of Advertisers, dos Estados Unidos), e o Kachingle, sistema agragaador de blogs:

O robô de notícias que não exige mais explicações...
O robô de notícias que não exige mais explicações...
Um sistema agragador de blogs - pago, que trabalha com um modelo de micropagamentos definidos conforme o valor da informação atribuído pelos  usuários
Um sistema agragador de blogs - pago, que trabalha com um modelo de micropagamentos definidos conforme o valor da informação atribuído pelos usuários
A proposta da NAA para um novo posicionamento dos classificados nos jornais
A proposta da NAA para um novo posicionamento dos classificados nos jornais"

Diante das sugestões de Steve Outing, as empresas informativas têm um enorme campo de novos modelamentos para seus negócios. É pegar ou largar!

(Beth Saad)

10 + 10 = você decide. Como usar as ferramentas de mídia social

Ao que tudo indica, as grandes organizações de mídia e mesmo empresas em geral antenadas nas inovações estão cada vez mais criando estratégias de relacionamento com seus públicos por meio das ferramentas de mídia social. Como usar, que estratégias adotar, como customizar ou individualizar o potencial da ferramenta para cada caso são itens que entram na pauta dos planos de comunicação.

O recente post deste Intermezzo sobre um novo tipo de uso de rede – a “protegida”- criada pelo Wall Street Journal indica tendência e é um exemplo. Outras empresas enveredam pelo mesmo caminho: o The New York Times acaba de lançar o Times People em parceria com o Facebook para agregar seus usuários cadastrados e estimular o compartilhamento entre eles. A MTV lança a Flux (tela abaixo), num conceito mais amplo do que uma rede de relacionamentos, criando o que eles chamam de “estratégia vertical de entretenimento” que inclui além da área de relacionamento para 7,5 milhões de usuários cadastrados 35 sites da MTV, 1000 publicadores independentes entre outros acessos a conteúdos.

 

Como a tendência é forte, em paralelo a essas iniciativas, vemos uma série de colunistas e entidades que listam em suas colunas e blogs a famosa receita norte-americana de “10 itens para….” sobre o uso de ferramentas de mídia social. Pessoalmente, não sou muito afeita a listas desse tipo pela limitação inerente. Mas, o próprio Technorati adota a fórmula em seu relatório State of the Blogsphere 2008, então selecionei duas listinhas a partir das quais comento. Vejam:

A colunista e blgueira do Advertising Age – B. L. Ochman – fez uma lista interessante dos 10 itens que justificam porque uma empresa não deve usar blogs. Cito Ochman porque compartilho da maioria de suas 10 proposições: o blog é uma manifestão pessoal e não uma voz coletiva de uma empresa; tem linguagem própria, portanto não é uma listagem de press-releases que divulgam, por exemplo, “a palavra do presidente”; o blog corporativo não substitui campanhas de marketing e promoção, a assessoria de comunicação entre outras. Portanto, o uso de blogs corporativos é apenas um item na estratégia de comunicação e presença digital de uma empresa. Não a panacéia de existência na rede.

Uma outra lista de 10 e mais itens interessantes também está no Advertising Age dando dicas de como usar o Facebook, o MySpace, o Twitter e o Linkedin para busca de empregos e desenvolvimento de carreira. Ocorre que a listinha ultrapassa a questão individual e oferece boas informações sobre como redes de pessoas são fonte e campo para uma atuação estratégica de comunicação. Esses tipos de redes, onde estão envolvidas diretamente pessoas, têm uma característica fundamental para funcionar: o uso da verdade. Informações falsas, identidades construídas, explosão de inofrmações e atualizações não denotam um perfil estratégico de uso deste tipo de rede social. Vale a leitura, especialmente em tempos atuais onde o Twitter, por exemplo, tem sido usado para espécies de “spams corporativos” de empresas que solicitam adição da pessoa à sua rede apenas para compor um grupo de interesse e uma mala direta grátis.

Busquem suas listas 10 + 10 + outros 10….. e criem seus próprios critérios de uso das ferramentas de mídia social.

(Beth Saad)