Facebook, privacidade e web semântica: nenhuma surpresa, mas muito a debater

Iniciarei a minha disciplina de “Web Semântica” na Pós-Graduação da ECA-USP (digicorp) essa semana. Será praticamente impossível — para não dizer uma grande falha — deixar de abordar com os meus alunos a polêmica que se estabeleceu em torno da privacidade dos 500 milhões de usuários presentes no Facebook.

Mas o que a web semântica tem a ver com a privacidade no Facebook? Muito.

O Facebook quer enriquecer a relação entre os dados disponíveis na web. Dados são  pessoas, lugares e objetos. Enriquecer significa dar mais sentido às relações entre pessoas, lugares e objetos, ou seja:

a) aprimorar e explicitar a correlação entre um usuário e seus amigos, colegas de trabalho, parentes etc.;
b) entre o usuário e os lugares que ele gosta de visitar (ou não), ou nas localidades que ele costuma estar/viver/trabalhar;
c) entre o usuário e seus objetos de interesse (as músicas que ouve, os livros que lê, os seriados que assiste etc.).

O Facebook quer fazer tudo isso através do botão “Like” (“Curti” em português), agora disponível em ambientes externos ao Facebook. Assim, a proposta do Facebook é uma proposta semântica: cria laços de significado (sentido) entre pessoas e coisas.

A iniciativa abrange a web inteira. Não fica apenas entre as paredes da rede social. Aliás, o fato dessas relações ficarem relativamente públicas só reforça a aproximação do FB com o grande projeto da web semântica anunciado em 2001 (ser uma web toda aberta e interligada).

O que quero dizer aqui é que não basta abandonar o Facebook. O perigo está exatamente em achar que saindo de uma rede teremos a nossa privacidade preservada. O problema é um pouco mais difícil de resolver: temos que encontrar uma solução para a questão como um todo. Para todas as redes. Para toda a web. Juntos.

(Daniela Bertocchi)

Imagem: escultura de Jen Stark - Vortextural / 42" X 35" X 30" / Installation of hand-cut acid-free paper, foam board, glue / 2013
Imagem: escultura de Jen Stark – Vortextural / 42″ X 35″ X 30″ / Installation of hand-cut acid-free paper, foam board, glue / 2013.
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10 thoughts on “Facebook, privacidade e web semântica: nenhuma surpresa, mas muito a debater

  1. Realmente, o problema vai alem da privacidade do Facebook. Talvez agora, diante da polemica, as pessoas possam refletir mais sobre toda a questao da web. Eu, por exemplo, estou aqui pesquisando sobre a web semantica, pois ainda nao entendo bem. Porem, consegui entender a relaçao com polemica atual e com o “futuro da internet” (Ja e um começo rs rs).

    1. Belle: há um paradoxo aí entre o “dar” informação para que o sistema funcione lindamente e o “proteger” a informação para preservar a privacidade de cada um. A web semântica prevê uma coleta de dados e a interpretação deles através de mecanismos de interligação. Quanto mais dados, mais inteligente o serviço se torna. Mas menos privacidade temos. Então, como solucionar isso? Precisamos encontrar um equilíbrio aí entre serviços e controle de dados pessoais. E não fazer do FB o vilão da história. 🙂

    2. Pessoal, deem uma olhada no post do Thiago Dória com o posicionamento do Mark Zuckerberg em um artigo no Washington Post.

  2. Ontem a Beth Saad em resposta à plateia aqui em Porto Alegre no Lançaento da #sacfabibo falou que não acha mais preocupante ficarmos reféns das redes sociais, do que ficarmos reféns, e hoje já somos, do google por exemplo. Está correlação que o FB procura é o que chamam de web 3.0?
    MATEUS

    1. Mateus: na verdade, nâo existe web3.0, ou web2.0 ou web1.0. Existe WEB. Essa web está em constante transformação. No momento, ou pelo menos desde 2001, existe um movimento para que ela contenha dados mais interligados (linked data) e mais abertos (open data). A parte “semântica” da coisa está exatamente nesse “dados interligados”. Porque as ligações em questão se fazem com sentido. É tudo muito baseado na lógica e na linguística: A máquina vai entender que João e Maria trabalham na mesma empresa e que João é vizinho de Antonio e que Antonio estudou com a Maria na terceira séria primária. È mais ou menos por aí… Sentido. O botão do FB segue por esse caminho. Beijos. Dani.,

  3. Também para se pensar que o que todos procuram hoje na Internet são informações relevantes em meio a um mundo de sites e links. E o que é relevante, para cada usuário, pode chegar a ele muito mais fácil dessa maneira, com associações, com botões “curti”, com esses “laços de significado”.

    Outro exemplo é a ferramenta Stumble!, do Firefox, que se espalha pela web, com táticas semelhantes ao “like” do Facebook, criando esses laços.

  4. Olá Daniela,
    Faço uma disciplina com vc da pós e uma vez vc falou na aula que há poucas críticas a web semântica, sem querer encontrei uma reportagem sobre web semântica na INFO de junho de 2009 onde um prof. chamado Peter Gärdenfors faz algumas críticas. O texto é pequeno e não me aprofundei, mas de repente é interessante procurar mais informações.
    Abaixo envio o link:
    “A web semântica é perda de tempo” – http://info.abril.com.br/noticias/internet/isso-e-perda-de-tempo-24072009-7.shl (o texto é só de uma parte da reportagem da INFO, a matéria completa se chama “A web semântica do futuro é semântica?)
    abs!

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