O mito do texto curto

Fita métricaJá passamos da primeira década de internet disseminada e ainda ouço de alunos e colegas a máxima: “Na internet, o texto tem que ser curto, não é?”. Não, não é.

Definindo

Desde os primórdios, o hiperlink permite, entre outras coisas, a fragmentação de qualquer conteúdo em pedaços, ou chunks, em inglês. Com isso, deixamos a cargo do usuário decidir o quanto ele irá se aprofundar em determinado assunto.

Essa é uma das principais vantagens do texto digital em relação ao analógico. No segundo, como há limitações de tempo e espaço, o jornalista diariamente imagina quem é o seu leitor e faz uma auto-seleção de quais termos merecem um desenvolvimento ou não. Por exemplo, um jornalista do Mais! – caderno do jornal Folha de S.Paulo sobre cultura – certamente se sente à vontade ao discorrer sobre Schopenhauer, pois imagina que a média dos seus leitores conhecerá o filósofo. Por outro lado, o repórter do jornal Extra, periódico popular do Rio de Janeiro, seria obrigado a fazer uso de um longo aposto para contextualizar o seu público-alvo sobre quem é o autor e o que ele fez de importante.

Pequenos preconceitos e grandes limitações

O jornalismo tradicional é formado por esses pequenos e praticamente inconscientes preconceitos. Na prática, nem todos os leitores do caderno Mais! são eruditos e nada garante que os do Extra não o são. Entretanto, pelas limitações do suporte, o jornalista é obrigado a desenhar em sua imaginação o público-alvo e moldar seu texto a ele.

Além disso, os suportes tradicionais são limitados por suas características. Eles não atendem plenamente nem o especialista e nem aquele que desconhece o assunto. Continuando com o exemplo do Schopenhauer, o jornalista pode fazer uso de recursos como o aposto ou o box para tornar o texto mais acessível. Correto? Errado. Na verdade, essas saídas soarão enfadonhas para o especialista e ineficaz para o leigo, já que elas não oferecem grandes aprofundamentos.

O hiperlink – assim como o hipertexto e a hipermídia – chega para dar um salto qualitativo em termos de redação. Pela primeira vez, podemos fazer um texto curto do qual se ramificam conexões que levarão a um aprofundamento. Dessa forma, um especialista pode se contentar com um nível mais superficial da informação enquanto o leigo, de acordo com o interesse, tem à disposição diversas conexões que o levam a conteúdos realmente detalhados.

Já pensou o que seria da internet como fonte de pesquisa se todos levassem a sério o mito do texto curto? Mudar a maneira como se aprendeu a escrever é difícil. Como começar a escrever de forma não-linear e em camadas depois de toda uma vida alfabetizado na linearidade. Tanto não é fácil que praticamente nenhum veículo faz uso do hipertexto de forma avançada. A maioria ainda escreve para a web como se escrevesse para um jornal e produz conteúdo em vídeo como se estivesse produzindo para a televisão. Em seus livros, MURRAY e SALAVERRÍA já debateram intensamente o fenômeno da subutilização dos recursos do meio digital. Por esse motivo, o texto não precisa ser, necessariamente, curto. O ideal é darmos condições aos usuários, por meio dos hiperlinks, para decidirem o quão curta ou extensa será a leitura de acordo com os interesses e repertórios de cada um.

Mas, afinal, de onde surgiu esse mito?

“A culpa é do Nielsen”

Em 1997, o especialista em usabilidade Jakob Nielsen (foto) publicou o artigo “How Users Read on the Web“. Nesse estudo, ele demonstra o quanto o texto curto, com destaques visuais e à base de marcadores tornam a leitura na internet mais eficaz.

Ele está certo. Um texto nesse formato tem mais chances de ser lido do que parágrafos e mais parágrafos dissertativos. Entretanto, não podemos nos esquecer de três pontos antes de repercutir o texto de Nilsen:

  • A análise feita por ele mediu aspectos fisiológicos do comportamento. Do ponto de vista do conforto, um texto de acordo com as características propostas realmente funciona melhor. Entretanto, o fator interesse não foi levado em conta. É esse fator que faz os leitores do Observatório da Imprensa escreverem para o site reclamando que alguns artigos ficaram curtos demais.
  • A pesquisa foi feita em universo bastante restrito e Nielsen deixa isso bem claro. Quem lê os prefácios dos livros dele percebe a preocupação em deixar claro que estamos falando de recomendações que devem ser analisadas e adaptadas dentro de um contexto particular, e não dogmas universais.
  • Há 12 anos, predominavam os monitores CRT que, notavelmente, tornavam a leitura diante da tela bem mais cansativa em relação aos atuais de LCD.

Entretanto, a leitura superficial desse artigo foi parar nos livros, que foi parar nas mãos dos professores que, até hoje, cuidam da perpetuação do mito do texto curto entre os jovens jornalistas. Aqueles mesmos que, após quatro anos, estarão nas redações digitais, se tornarão editores e passarão essa máxima equivocada adiante fomentando um ciclo que atrasa, e bastante, o desenvolvimento de uma narrativa jornalística que usufrua plenamente os recursos do ambiente digital.

(Andre de Abreu)

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34 thoughts on “O mito do texto curto

  1. Muito bom, André!

    O ano letivo está começando e espero que os professores de jornalismo online (digital, multimídia e afins) leiam este post!

    É preciso fugir seriamente dos guias superficiais produzidos às pressas que reforçam essas idéias ultrapassadas.

    Abraços,
    DB

  2. Oi André. Mto bom seu texto. Sintetizou o mau uso do hipertexto no jornalismo, sendo que a internet potecializou o uso da hipertextualidade ao quase-infinito. E isto não é utilizado. O conceito de taggeamento até é exercitado, mas ainda de forma muito burra, binária. Ou seja, acho que este seu texto contribui por abordar, com clareza, a falta de uso de um dos recursos mais ricos no jornalismo online, a hipertextualidade. Vou utilizar este texto em aulas de JOL. Valeu! Abraços. PH Ferreira.

  3. Coitado, Tiago (rs). As pessoas lêem o Nielsen com pressa e a culpa acaba recaindo sobre ele. Até por isso coloquei o intertítulo entre aspas. O santo nome dele sempre é citado em vão sendo que ele nunca disse que todo o texto da internet precisa, necessariamente, ser curto na web.

  4. Alberto, o livro do Killian, se não me falha a memória, foi um dos que propagandeou o mito do texto curto. Na época, ele foi muito importante, foi o pioneiro. A questão é que, mesmo passada mais de uma década desses primeiros estudos, as conclusões deles ainda são ensinadas em sala de aula como regras de boa escrita para a internet, sendo que elas sempre foram meras recomendações, mesmo naquele tempo.

  5. Caro, adorei o texto. Tanto que gostaria de pedir um favor: que você continuasse o assunto.

    Você diz: “Tanto não é fácil que praticamente nenhum veículo faz uso do hipertexto de forma avançada”. Então, que tal tentar mostrar exemplos desse conceito nos portais ou grandes jornais brasileiros?
    Abraços

  6. Obrigado pelo texto… vou disseminá-lo por aí, sem dúvida!
    Trabalho com equipes editoriais tradicionais de revista e o mito é sempre reproduzido sobre o meu trabalho com internet. É realmente difícil dissociá-lo no meio. Encaro esse post como uma ajuda 😉

  7. Olá, Ricardo! Obrigado pela sugestão; dica anotada! Para não deixá-lo na mão enquanto o post não sai – afinal, bem sabemos o quanto demora manter um blog com conteúdo original – eu deixo dois exemplos, um bom e outro ruim, do mesmo veículo, a Folha Online:

    BOM (o conteúdo não essencial sai da matéria principal e vai para hipertextos acessíveis de acordo com o interesse do usuário)
    http://www1.folha.uol.com.br/folha/cotidiano/ult95u507476.shtml

    RUIM (sem qualquer aviso prévio, o usuário, ao clicar no hiperlink, é levado ao search do UOL tendo como query a palavra clicada:
    http://www1.folha.uol.com.br/folha/colunas/zapping/ult3954u506984.shtml

    Já o Último Segundo – “o jornal 100% digital” – escreve de forma 100% analógica. O fato novo da notícia a seguir é a morte do Sérgio Naya. Todo o restante, para quem já conhece, é acessório. Para outros, entretanto, pode ser essencial. Afinal, nem todos se lembram do caso Palace 2. Por isso, o texto deveria focar apenas no que é fato novo para todos (a morte). O contexto da história (caso Palace 2) deveria ir para um hipertexto somente para interessados. Mas não, o site gasta longos 4 parágrafos, como manda a velha pirâmide invertida, apresentando um contexto necessário talvez apenas para uma minoria:

    http://ultimosegundo.ig.com.br/brasil/2009/02/20/morre+o+ex+deputado+federal+sergio+naya+4204921.html

    Para concluir, além do aspecto da linguagem, há o aspecto técnico e da usabilidade (já que falamos do Nielsen). Agora que cada vez é mais agradável ler a web no celular, haja paciência para carregar páginas noticiosas cheias de contextos misturados a fatos novos, sendo que eles poderiam ser hipertextos que “acionáveis” somente quando o meu interesse mandasse.

  8. Oi André! Muito boa a abordagem!

    Quando a gente vê os estudos do Nielsen indicando que os usuários só lêem 28% do texto de uma página, nos assustamos, claro e logo pensamos que é o fim de textos reflexivos, analíticos na rede. Enquanto isso, a verdade é que a rede tem lugar para tudo. Cada usuário é que faz o seu filtro. E isso vai depender da demanda que ele nos apresentar.

    Ano passado dei uma aula de webwriting em que abordava justamente essa particularidade de formatos em cada tipo de conteúdo. Certamente o jornalismo de breaking news pede uma leitura mais rápida NAQUELA PÁGINA. Mas o webwriting em si não deve limitar o usuário naquela página e sim oferecer-lhe possibilidades de ir além, dentro do foco da notícia. Aliás, essa tarefa não é fácil, pois requer pesquisa e desprendimento (às vezes é necessário levar o usuário para fora do teu site para atender às demandas dele).

    Sempre acreditei nas células informativas com sentido completo e hiperlinkadas entre si – coisas do Salaverría 🙂 E fiquei feliz quando vi uma colega adaptar um texto enorme de revista em várias páginas com textos curtos mas ligadas de maneira a facilitar a leitura e torná-la expansível de acordo com a necessidade do usuário.

    Viajando um pouquinho, essas páginas são como o princípio paradoxal da complexidade: são AUTÔNOMAS e INTERDEPENDENTES.

    Beijão!

  9. Então, acho que os professores se apegaram às primeiras fontes que sairam sobre comunicação na web. Mesmo essas fontes citando que não estava formado ainda, de fato, o molde da comunicação on line.

    De forma alguma é culpa dos autores. Talvez tenha algum comodismo de se querer ensinar o que está escritos no livro como verdade absoluta, o que sempre aconteceu, de certa forma, com as demais mídias.

    A comunicação on line tem muito o que mudar ainda.

    Abraços! Muito bom o texto!

  10. Concordo plenamente. A verdade é que, exceto por blogs, não há muitos bons exemplos de como usufruir toda a potencialidade da hipermídia nos quais os jornalistas (e os leitores) possam se basear.

    Pessoal logo pensa que a Web não permite “aprofundamento” da reportagem, pela exiencia de textos curtos. Na verdade, isso é preguiça mental.

  11. Adorei o texto e o blog.
    Esse ano pretendo fazer vestibular para Jornalismo e quando li esse texto fiquei ainda mais fascinada com o curso.
    E quanto ao blog, ja esta na minha lista de favoritos. Parabens!

  12. Legal ler esse texto depois do que aconteceu comigo. Fiz um post no Butuca Ligada (http://www.butucaligada.com.br/2009/03/07/novos-limites-para-a-relacao-entre-imprensa-e-poder/) em que reclamo de certos agentes públicos que ocupam espaço e tempo fixos em jornais e TVs. Não queria fazer uma denúncia vazia. Por isso, busquei as fontes que comprovavam o cargo público e o vínculo com a mídia dos três exemplos que dou.

    Porém, não cito explicitamente os nomes dos meus exemplos, mas coloco dois links pra cada um deles (o do cargo público e o do vínculo com a mídia). Meu objetivo era utilizar o link não apenas como recurso textual, mas como recurso narrativo. Ou seja, o link fazia parte da história. Não desejava fazer um texto curto, e sim fazer uso de uma funcionalidade básica do hipertexto.

    Pois bem: fui criticado por “não ter sido explícito” e por não ter escrito os nomes das criaturas. Foi dito que eu deveria ter sido “cidadão” etc. Fiquei chateado, pois, ora!, se eu não dava os nomes explicitamente, dava o caminho das pedras para a *comprovação do que eu estava falando*. Poucos na internet fazem isso.

    Será que realmente o texto ficou com cara de fofoquinha por não ter dado os nomes? Ou será que os leitores não estão acostumados ao uso mais maciço de simples recursos hipertextuais? Ou será que não funcionou?

  13. No dia 20 de março o Centro Knight para o Jornalismo nas Américas da Universidade do Texas em Austin acaba de publicar a edição eletrônica em português do livro Como escrever para a Web, escrito pelo jornalista colombiano Guillermo Franco e traduzido pelo jornalista brasileiro Marcelo Soares.

    As edições em português e espanhol podem ser baixadas em formato PDF, na íntegra e gratuitamente, do website do Centro Knight. Leia mais: http://knightcenter.utexas.edu/knightcenternews_article.php?page=9729

  14. A questão é mais ampla que o texto, claro. Internet é meio.
    Então a questão central é como passar a mensagem desejada da maneira correta. Não importa aí o “tamanho” do texto, mas de que maneira ele estará exposto.

    Cito como exemplo o interemezzo: seu post é menos longo do que parece. Mas a profusão de elementos na página e a má distribuição de espaçamento geram um dificultador para distinção dos próprios elementos, diminuindo a performace de comunicação. Mesmo um texto curto perde atratividade.

    Internet é um meio diferenciado, democrático e dinâmico, em constante mutação e bastante recente! Sua exploração é baseada por tentativa e erro. E é assim mesmo. Nos primórdios, a TV era imagem estática e música de fundo! O que importa é a nossa criatividade e inteligência.

    abs
    -egidio

    Como observação final:
    A plataforma wordpress não nos permite alterar o CSS, então temos essa prisão estética. E isso compromete a capacidade de comunicação!

  15. Adorei o artigo. Nos anos 90, como nada havia para a gante se guiar, eu mesma escrevi um “manual de redação online” que postulava o texto curto (adaptei o manual do radiojornalismo). Hoje, estou cada vez mais convencida de que blogs, opinião e textos proteicos ganham mais interesse dos leitores que simples leads “objetivos”. Parabéns!

  16. Pingback: Priscila Zigunovas

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