Por que as pessoas lêem blogs ao invés de sites de notícias?

Você já se fez essa pergunta? Os blogs teriam chegado a um patamar de qualidade de conteúdo maior do que o da grande imprensa? Seria a mudança geracional dos leitores? A tal web 2.0?

Talvez. Mas um dos possíveis motivos para a queda de leitura da grande imprensa online atende pelo sigla SEO. Não se preocupe, não irei discorrer sobre monetização e sim como os sites noticiosos da grande imprensa não se adaptaram a mudança de comportamento que todos já estão carecas de saber: as pessoas não acessam mais; elas buscam.

Os trabalhos de BATTELLE, TAPSCOTT, MEYER, e SANT’ANNA falam amplamente das características do leitor digital. Contudo, basta conversar com qualquer editor de redação on-line para ele atestar o fato de que a maior parte do tráfego do site advém do Google. Esse fenômeno é observável em qualquer local público de acesso à internet. As pessoas trocaram os favoritos e a digitação manual pelo conforto e a praticidade de uma busca eficiente.

Diante essa realidade, pergunto: ao realizar suas buscas, quantas vezes um site de jornal ou revista de grande circulação apareceu na primeira página de resultados? Faça o teste. Você verá que raramente eles aparecem. As primeiras páginas do Google são praticamente domínio de blogs e de wikis. Mérito deles? Em alguns casos sim, mas mérito maior das plataformas de conteúdo:

  • A maioria das empresas renega plataformas livres de publicação de conteúdo, pois temem a falta de suporte. O resultado é a aquisição de CMSs fechados ou o desenvolvimento de soluções in house que, sem as devidas personalizações, não são semanticamente corretas. Por outro lado, praticamente todos os blogs são construídos em cima das plataformas WordPress e Blogger. Ao contrário dos pacotes fechados, os desenvolvedores e as centenas de voluntários em torno desses dois projetos trabalham versão a versão para deixá-los cada vez mais corretos e adequados ao W3C e aos principais padrões web.
  • As URIs das notícias dos sites da grande imprensa geralmente são compostas de códigos gerados aleatoriamente pelos CMSs ao invés de trazerem o conteúdo da manchete. Estruturas de endereços não amigáveis fazem com que as páginas percam relevância para o Google.
  • Alguns dos sites de jornais e revista que testei desconhecem o que é SiteMap e Robots.txt. A ausência desses dois mecanismos também faz qualquer página perder muitos pontos nos resultados orgânicos dos mecanismos de busca.

A junção da tecnologia dos blogs, a ausência de tecnologia dos sites da grande imprensa e o novo comportamento dos leitores acaba retroalimentando o sistema. O novo usuário busca o conteúdo que aparece na primeira página dos sites de busca – independentemente de grandes critérios qualitativos ou de reputação, basta que o conteúdo responda a pergunta da busca e a minha experiência como professor universitário, infelizmente, comprova isso -, com plataformas mais otimizadas, blogs e páginas wiki sempre aparecem nas primeiras páginas e, logo, são mais clicadas e referenciadas. Desta forma, o algoritmo do Google entende que esse tipo de conteúdo é mais relevante do que os conteúdos dos sites de imprensa. Com a repetição desse ciclo, os sites jornalísticos – a despeito da crise do setor – são, cada vez mais, relegados às últimas páginas dos resultados de busca.

Por isso, além do investimento em conteúdo de qualidade, relevante e exclusivo, é preciso também melhorar as plataformas de conteúdo e não ter medo do que é gratuito. Um bom ponto de partida para iniciar essa mudança é a leitura do Google’s Search Engine Optimization Starter Guide (PDF).

(Andre de Abreu)

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14 thoughts on “Por que as pessoas lêem blogs ao invés de sites de notícias?

  1. Olha, eu concordo que as empresas não usam URLs amigáveis e isso dificulta sim a busca pelo Google. Mas acabei de fazer um teste. Digitei “líder do hamas morto” no Google e os resultados da primeira página têm links para o Estadão, Folha, G1, BBC, entre outros. Não veio nenhum blog na primeira página dessa busca.

    Eu acho que as pessoas lêem blogs, sim, mas não buscando informações. É mais entretenimento. As notícias ainda estão nos sites de notícias. Ainda bem!

  2. Olá, Thais! Você tem razão. Alguns assuntos mais específicos ou mais políticos acabam trazendo sites noticiosos nos resultados, pois a blogosfera brasileira praticamente não repercute esses temas e não é tão politizada como a norte-americana, por exemplo. Mas comece a reparar no dia-a-dia como isso está deixando de ser comum. Por isso estou com esse palpite de uma parcela da culpa da audiência decrescente dos sites noticiosos “oficiais” se dá por questões técnicas que o jornalista não aprende na faculdade. Por isso precisamos ficar de olho nesse tema e aumentar a nossa afinidade com as áreas de TI para daí surgir uma real parceria. Quanto aos blogs apenas por entretenimento, alguns dos meus alunos da faculdade não pensam assim não (rs). Eu já peguei cada caso de Ctrl+C/Ctrl+V que até Deus duvida. Já teve aluno de jornalismo copiando até resposta do Yahoo!Answers. Por isso estou começando a prestar atenção no quanto as pessoas dão mais valor a uma informação de primeira página de busca, independente da qualidade ou da procedência, e estou notando que não apenas os alunos demonstram esse comportamento. Desta forma, estou analisando o quanto os blogs realmente são lidos por mérito próprio ou por artimanhas de SEO.

  3. Oi André! Bacana a reflexão. Mas eu tenho uma hipótese para adicionar a este problema…

    Além do SEO e desse nova forma de navegação (através da busca) guiar o comportamento dos usuários, existe a PERSONIFICAÇÃO da mensagem, que é atendida por blogs dedicados a um certo tema, enquanto sites de jornais, revistas e afins seguem generalistas.

    Personificação pode ser duas coisas: relatos testemunhais ou dedicação do blogueiro a um tema específico. Em geral, temas que fazem parte do seu cotidiano. Essa proximidade atende melhor à demanda do usuário.

    Minha mãe procurava no Google “por que dou choque nas pessoas” e, num tapa, descobriu que há muuuuuitas pessoas que “sofrem” do mesmo “problema” que ela. Tudo através de blogs. Nos comentários, tinha professor de física explicando o fenômeno. O site mais institucional que a gente encontrou atendendo à demanda dela foi o Yahoo Respostas, com conteúdo… do usuário.

    Fantástico isso!

    beijo e bom ano, meu querido!

  4. André,

    realmente, deve haver uma aproximação com o pessoal de TI, sim. Nas empresas, eu digo. Pro conteúdo “oficial” ser mais relevante no Google. Mas aí tem o caso que a Ana disse, que nenhum veículo oficial vai conseguir produzir (ou então os veículos oficiais devem começar a procurar esse tipo de pauta, talvez). De qualquer forma, os blogs daqui (do Brasil) e de lá (EUA) são diferentes, mesmo. Não sei muito sobre o assunto, mas aqui o blog é muito mais pessoal e miscelâneo do que lá, que parece ter nichos mais definidos. Tudo isso deve ser levado em conta!

  5. andré,
    por mais que concorde plenamente com suas análises sobre a falta de ajustamento das plataformas de publicação de conteúdo, vejo ainda um componente comportamental atualmente no auge desde a ascensão dos blogs: a perda do verniz da mídia estabelecida (pô, eu acho grande mídia um termo bastante questionável).

    conheço MUITO leitor que, embalado por esse sentimento de revolução oferecido pelos blogs, lê notícias originalmente publicadas em jornais conhecidos em outras mídias que não o próprio jornal – blogs e redes sociais em sua maioria.

    é difícil afirmar com certeza, mas fica a impressão de que a implicância está na relação com a marca do veículo, e não o conteúdo produzido.
    abraços,

  6. André, acho que a questão é menos tecnológica e mais comportamental. A grande imprensa, de uma forma geral, já acordou para as práticas de SEO.

    Mesmo com sistemas de CMS próprios, as URLs estão mais amigáveis e várias outras práticas foram implantadas para facilitar, do ponto de vista tecnológico, que o conteúdo seja encontrado pelo robô do Google.

    Quem ainda não acordou para a força da busca são os jornalistas. Uma parte tão importante quanto a tecnologia, numa estratégia de SEO, é a forma como o conteúdo é organizado e como os títulos são escritos, para citar dois fatores muito relevantes.

    Nossos coleguinhas estão perdendo dezenas de milhares de visitas para o seu conteúdo via os sites de buscas ao não se adaptarem a forma como os seus leitores estão procurando as notícias.

    Cada vez mais, os jornalistas precisam escrever para os seus leitores, mas também para os robôs de busca.

  7. Hum… Não sei ainda se os blogs aparecem em primeiro lugar de uma forma tão universal assim. Várias pesquisas que fiz nos últimos tempos ainda dão sites de jornais. Acho que depende do assunto. Notícias muito quentes acabam caindo nos sites de jornais. Se forem mais específicas ou, então, hypes, dão blogs na cabeça. Mas ainda não dá pra dizer que os jornais estão caindo pros últimos lugares. A tendência existe; mas é tendência, não realidade.

  8. André,

    Muito legal sua reflexão. Se posso adicionar um pitaco, colocaria aí o ingrediente político —e a gente constantemente esquece que por trás do algorítimo de buscas do Google existem pessoas e ações na Bolsa de Valores…

    Como bem disse o Ralphe, os “grandes veículos” já acordaram para o SEO e têm trabalhado duro nisso. Aliás, Ralphe e eu temos trabalhado em projetos que envolvem isso.

    Por outro lado, uma das ferramentas de blog que você citou é do próprio Google… ora, não seria interessante priorizá-la no algorítimo?

    Quero lembrar um episódio de 2007 que foi pouco noticiado no Brasil, mas o Google “puniu” sites que não usavam seus mecanismos de links patrocinados (e criaram seus próprios) rebaixando seus PageRanks.

    Portanto, acho que vale a gente manter o olho aberto em Google e busca em geral. Até que ponto a gente não está simplesmente creditando à tecnologia uma credibilidade que ela não tem? 😉

    É isso!

    []s!

  9. Arrisco emitir minha opinião de leigo, mas assíduo leitor de blogs e internauta em geral. Acredito que as pessoas acessam mais blogs do que sites de notícias (de imprensa) pelo simples motivo da linguagem.

    Vivemos em um país que sofre com a falta de ensino. A falta de ensino leva a uma não compreensão de textos. As informações providas pela imprensa têm uma linguagem formal, que por mais clara que seja, ainda está acima do nível da maioria da população do Brasil.

    As estatísticas online que mostram que o brasileiro acessa muito mais blogs, mostra que as pessoas estão acessando o que elas conseguem entender. Quero dizer que a estatística mostra que a maioria dos blogs acessados não têm conteúdo informativo e cultural necessários para desenvolver a capacidade de discernimento, a capacidade de formar opiniões e, principalmente, a capacidade de pensar. E essa última é a principal atividade que um ser-humano precisa desenvolver, pois é isso que nos diferencia como animais racionais.

    Por isso creio que os números mostram mais o velho problema social da falta de ensino às população. Bastava que as escolas incentivassem seus alunos a lerem mais, a criar gosto e atração pela leitura, para que lessem mais jornais e mais blogs de profissionais da imprensa.

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