Digital cabeça de papel

Curioso como algumas redações ainda fazem jornalismo impresso no ambiente digital. Prova disso é a notação horária.

Todos sabem que na internet nossa audiência é global. Por isso, tornou-se convenção em sites jornalísticos do mundo sempre referenciar Greenwich (GMT) ao mencionar informações de tempo nas notícias. Dessa forma, independentemente de onde esteja o usuário, ele terá idéia de quando aconteceu o fato em relação ao fuso horário local.

Folha Online

A Folha só emprega o GMT herdado dos textos das agências internacionais. Ainda assim, a maneira como isso é feito deixa claro que o jornalista tinha o usuário brasileiro em mente ao realizar a tradução:

Nos demais textos editoriais, o GMT sequer é citado. Apenas o “horário de Brasília”, típico dos jornais impressos brasileiros.

G1

No G1 acontece o mesmo. O GMT só aparece nas traduções literais de textos de agências internacionais:

No conteúdo editorial, nada. No exemplo abaixo, por falta de referência e pelo assunto da notícia, presume-se que se trata do horário de Brasília:

Último Segundo

No site jornalístico do iG a história se repete: GMT apenas nos textos da agências internacionais:

Mas não em todas. Em determinadas traduções, volta à tona o famigerado “horário de Brasília”:

Estadão

Como os demais sites, GMT só em textos de agência traduzidos. O inusitado é a “tradução” para o horário de Brasília do momento das notícias ocorridas fora do Brasil. Com isso, fica claro que os textos são adaptados para o brasileiro, certamente a maioria dos leitores:

Mas como ficam os portugueses e os cabo-verdianos, mesmo sendo minoria? E o brasileiro que mora no exterior?

BBC

A solução da estatal britânica foi incorporar a informação ao template de todas as páginas. Assim, cada notícia criada já “puxa” o GMT preenchido pelo servidor.

Entretanto, em alguns momento isso pode causar confusão com os horários referenciados na notícia. O usuário pode confundir o fuso de atualização com o do fato reportado.

Para resolver todo esse imbróglio, vale considerar a recomendação de agosto de 1996 do velho e bom Jakob Nielsen. Apesar dos exatos 12 anos de idade, ela ainda é bastante atual:

The Web and the Internet allow real-time interactions, with celebrity chat sessions and with Olympic or World Cup results posted as the events happen. In announcing any real time event, you cannot simply say that it will happen from 2:30-4:00. First, is it 2:30 in the morning or the afternoon, and, second, what does that translate to in my own time zone anyway? It may be obvious to you that nobody would put on an event at 2:30 in the morning, but if that happens to correspond to 11:30 AM in my country, I might not think so. Any times listed on a web page should always at a minimum make it clear whether they are given in the AM/PM system or the 24-hour system (and if AM/PM, then these suffixes should be given) and which time zone they refer to. Time zone abbreviations (e.g, EDT) are not universally understood, so supplement them with an indication of the difference to GMT. Many users don’t understand GMT either, so optimal usability would involve translating the time into local times in a few major locations (e.g., “the press conference starts 1:00 PM in New York (GMT -5), corresponding to 19:00 in Paris and 3:00 the next day in Tokyo”).

(Andre de Abreu)

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