A Espiral Jornalística

Em 2008, faz 10 anos que optei pelo jornalismo. Neste período, pude conhecer por dentro todas as facetas da área: a do estudante, a do docente e a do mercado.

A partir desta visão privilegiada, tive condições de observar que estas três curvas que formavam o círculo perfeito do jornalismo estão se distanciando lentamente entre si em forma de espiral em um continuum vicioso e cíclico, trazendo uma desarmonia entre aquilo que o mercado quer, o que a universidade ensina e o que o aluno espera.

Com esta análise – empírica, certamente – gostaria de evidenciar algumas questões destas três facetas que, em um futuro não tão distante, podem acarretar inúmeros problemas ao jornalista e ao jornalismo.

Jornalista aluno

“O aluno de hoje já não é mais o mesmo”. Essa frase foi ouvida por mim dos lábios de vários professores e profissionais do mercado. Realmente, os alunos que entram nas universidades atualmente não são mais os mesmos. A formação básica de um estudante é essencial para o exercício do jornalismo. Conhecimentos como expressão verbal, humanidades e lógica são utilizados e retomados no dia-a-dia de qualquer jornalista.

Contudo, a maneira como os jovens e adolescentes aprendem esse conteúdo mudou significativamente nos últimos dez anos. Uma parcela desta mudança talvez possa ser atribuída à apostilização dos cursos básicos.

Talvez atendendo aos pedidos dos pais – esperançosos que seus filhos ingressem em uma universidade pública de renome – a maioria das escolas tem trocado os livros por apostilas de grupos vestibulares, fazendo com que o Ensino Médio se torne, na verdade, um curso pré-vestibular de três anos.

Junto com essa opção, as escolas também acabam invertendo o processo educacional. O ensino com base em livros e outros materiais didáticos fazem com que alunos e professores busquem o que eu chamo de conhecimento pela reflexão. O professor precisa usar a sua criatividade e sua experiência docente na elaboração das aulas e o contato direto do aluno com o livro impõe um processo de aprendizagem mediado pelo raciocínio e a introjeção do conhecimento. O ensino, neste formato, busca com o que o aluno se desenvolva como indivíduo e que o conteúdo lecionado se afixe à memória permanente do estudante.

Por outro lado, o ensino baseado em apostilas, tal como aquele praticado em cursos pré-vestibulares, treina a memória de curto prazo do aluno. O objetivo maior dessa prática é fazer com que o estudante memorize os conteúdos, sem fazer com que eles necessariamente compreendam aquilo que estão recebendo. Um grande exemplo disso são as músicas criadas pelos professores para fazer com que os alunos decorem certas fórmulas ou conhecimentos sem a necessidade de incorporá-los ou mesmo compreendê-los. Ao mesmo tempo, o docente deixa de levar às aulas sua personalidade, experiência e conhecimento, trocando tudo isso pelo papel de simples mediador, já que a adoção de um sistema de ensino por apostila também contempla a padronização das aulas e dos conteúdos lecionados.

Entretanto, este método vem se mostrando bastante popular, pois barateia os custos da educação básica, tanto para a escola quanto para os pais, e demonstra relativo sucesso no objetivo maior de levar os alunos a ultrapassar a seleção vestibular das universidades, já que esse tipo de exame, em muitos casos, privilegia a memorização do conhecimento.

Essa mudança no processo de ensino, aliado a outros fatores que fazem o Brasil figurar na 76ª posição das 129 possíveis do raking mundial de metas para a educação da UNESCO, tem colaborado para que os alunos cheguem às universidades com um repertório inferior e com uma baixa capacidade de reflexão, já que a visão do conhecimento esbarra nos limites das apostilas e na necessidade social de se ultrapassar o exame vestibular sem ou com pouca distinção entre o conhecimento memorizado e o incorporado.

No próximo post, analisarei o jornalista professor e o jornalista profissional; irei discutir como a problemática do ensino básico dos alunos, aliada a desatualização dos currículos das universidades e a inércia de uma parcela docente, contribui para que o jornalismo caminhe sempre um passo atrás de discussões atuais como integração de redações, participação ativa dos leitores, narrativas hipertextuais, o uso da multimídia e modelos de negócios em um “mundo 2.0”.

Até lá, mande seus comentários!

(AdA)

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