Um comentário de João Ubaldo Ribeiro sobre a cartilha “Politicamente Correto”

De acordo com o jornal “O Globo”, a Secretaria Especial dos Direitos Humanos está distribuindo uma cartilha com recomendações para o bom-uso de palavras consideradas pejorativas.

João Ubaldo Ribeiro, membro da Academia Brasileira de Letras e autor de “A Casa dos Budas Ditosos”, entre outros, comentou a notícia com seus amigos por meio do seguinte texto distribuído pelo próprio via e-mail:

Caros amigos,

Anexado em forma de documento do Word está uma notícia publicada no Globo de hoje, sábado. É estarrecedor. Estamos ingressando numa era totalitária, em que o governo dá o primeiro passo para instituir uma nova língua e baixar normas sobre as palavras que devemos usar? Será proibido em breve o uso de palavrões na língua falada no Brasil? Serão eliminadas dos dicionários vocábulos e expressões não consideradas apropriadas pelo Governo? Palavras veneráveis da língua, como “beata”, em qualquer sentido, deverão ser banidas? Será criada uma polícia da linguagem? Os brasileiros serão proibidos por lei de discutir vigorosamente e xingar os interlocutores? Que autoridade tem essa secretaria para emitir essas opiniões, que por enquanto podem ser apenas opiniões, mas nada impede, na ditadura mal disfarçada em que vivemos, que uma Medida Provisória, da mesma forma com que já nos confiscaram a poupança e os depósitos bancários, venha a ser baixada, confiscando também a nossa língua e os nossos costumes, mesmo os inaceitáveis pela maioria? Os escritores e jornalistas terão seus livros e textos examinados, para que se expurguem termos ou expressões codenadas? Contar piadas será tido como conduta anti-social e discriminatória? O governo é o dono da língua? As palavras “negro”, “preto”, “escuro” e semelhantes, nos casos em que não estiverem sendo usadas sem relação alguma com a cor da pele de ninguém, serão vedadas, se em qualquer contexto julgado negativo? As nuvens de chuva por acaso são brancas e alguém está insultando os negros, quando diz que há nuvens negras no horizonte (e há)? Os túneis são escuros e existe alusão racial na expressão “luz no fundo do túnel”? A peste bubônica não poderá mais ser mencionada como a “peste negra”? Tratar-se-á como injúria ou difamação chamar de comunista alguém que até o seja, mas não se considere como tal? Não se poderá mais dizer que alguém é burro ou cometeu uma burrice? Será publicada uma lista de palavras de uso permitido, ou de uso proibido? Acontece isto em alguma outra parte do mundo? Se um homossexual, como fazem muitos deles, rotular-se a si mesmo de “veado”, poderá ser censurado ou punido? O pronome indefinido peculiar à língua falada no Brasil (“nêgo”, como em “nêgo aqui gosta muito de uma festa”) só será aceitável se for numa afirmação elogiosa ou “positiva”?

O ridículo dessa cartilha não nos deve cegar para o fato de que está começando o que parece ser uma ampla distribuição, que certamente atingirá as escolas, as quais, já hoje, são obrigadas a classificar racialmente os alunos, dando a entender que certas áreas certamente considerarão um progresso e um passo em direção ao ambicionado terceiro mundo a instituição da segregação no Brasil. Não podemos aceitar esse delírio totalitário, autoritário, preconceituoso (ele, sim), asnático, deletério e potencialmente destrutivo – e, o que é pior, custeado com o nosso dinheiro. Que está acontecendo neste país? Aonde vamos, nesse passo? Quanto tempo falta para que os burocratas desocupados que incham a máquina governamental regulem nossa conduta sexual doméstica ou nosso uso de instalações sanitárias? Enfim, o que é isso, pelo amor de Deus? Até quando vamos suportar sermos tratados como um povo de ovinos imbecis e submetidos ao jugo incontestável da “autoridade”? Todo poder emana do povo ou da burocracia? Podermos ser processados, se chamarmos um membro do serviço público de “funcionário”? Temos liberdade para alguma coisa? Foi o Estado que nos concedeu o direito de pensar, opinar e dizer, ou este é um direito básico e inalienável, que não nos pode ser tirado? Não sei mais o que dizer sobre esse descalabro, esse escândalo, essa vergonha, esse sinal de atraso monstruoso, que de agora em diante não deverei mais poder chamar de palhaçada, para não insultar os palhaços. Até onde vamos regredir? É preciso que reajamos, é indispensável que os homens responsáveis por tal despautério sejam dispensados do serviço público, porque lá estão para cometer atentados à liberdade e arbitrariedades desse tipo. É indispensável que assumamos nosso papel de cidadãos detentores da soberania que, pelo menos nominalmente, é entre nós a soberania popular. CHEGA DE BURRICE, CHEGA DE ABUSO, CHEGA DE INCOMPETÊNCIA, CHEGA DE MERDA JOGADA SOBRE NOSSAS CABEÇAS! Ou então que nos calemos e vivamos o destino de gado a que forcejam para cada vez mais nos impor, a escolha é nossa e que essa iniciativa grotesca e idiota seja imediatamente esmagada, ou em breve não teremos direito a mais nada, nem à nossa língua, aos nossos sentimentos e à escolha de nosso comportamento que, não sendo criminoso, é exclusivamente da nossa conta e de mais ninguém. Não podemos ser mais humilhados e envergonhados dessa forma, exijamos respeito e seriedade, defendamos nossa integridade e dignidade, rebelemo-nos e, sim, xinguemos – bons filhos das putas – ou, melhor, bons rebentos de profissionais femininas do sexo, para respeitar as novas diretrizes. Vão se catar, e não às nossas custas, como vêm fazendo até agora. Desculpem, mas eu não posso conter a indignação e tentar passá-la para tantos compatriotas quanto possível. Saudações democráticas, revoltadas e dispostas a se tornarem revoltosas, de

João Ubaldo Ribeiro

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4 thoughts on “Um comentário de João Ubaldo Ribeiro sobre a cartilha “Politicamente Correto”

  1. OBRIGADO, JOAO UBALDO, MAIS O QUE ESTA ACONTECENDO COM A IMPRENSA, FICOU SERVIL , IDIOTA, SURDA, MUDA, CADE OS JORNALISTA INTELIGENTES , A QUE SAUDADES DO PAULO FRANCIS E OUTROS, SABIAM DIZER SEM SER POLITICAMENTE CORRETOS, O QUE E ESTE GOVERNO

  2. Oi,Tenho algumas dúvidas quanto à famosa “cartilha” . Por exemplo, chamar o inventor dessa coisa de “mentecapto ” ou de “bilhostre insano” contraria as directrizes ora fixadas? Contrariando ou não, parece-me ser uma das designações que tal criatura merece. E, sugerir ao mesmo autor que “deixe a sua região anal ser penetrada pelo membro viril de avantajadas dimensões de um afro-brasileiro, seu uranista”, vale como “ersatz” aceitável de “vai tomar no cu de um negão, seu veado ?”

  3. O mair problema é que temos um presidente semi analfabeto, que ser ler a mensagem com certeza não entedera o sentido.Pricipalmente, pois como homem do povo, com certeza ele já usou varias vezes varias expressões da cartilha que nós pagamos.

  4. O João tá com toda a razão. Aliás, as paginas amarelas da Veja de 18 de maio então, estão ótimas. Esse pessoal está mexendo em tudo. Querem redefinir tudo, colocar tudo em camisa de força. Como se tivessem competencia para tanto. Competencia no sentido de qualidade para tal.

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