Vozes ridículas

Em Portugal não há muita dublagem na TV (dobragem, como dizem por cá). Filmes, seriados e afins são sempre legendados. As entrevistas com estrangeiros nos telejornais também. Fico com a impressão de que toda a gente entende os outros idiomas, nomeadamente o inglês, ou acompanha bem as legendas. Alguém consegue imaginar isso no Brasil? Difícil. Com legendas, muitos seriam excluídos: ou por não entenderem outros idiomas ou simplesmente por não conseguirem acompanhar a corrida das letrinhas no ecrã (falo aqui do analfabetismo, do analfabetismo funcional, dos aparelhos velhos com imagens horríveis…). Já havia percebido essa diferença entre a TV dos dois países, mas ao ler hoje no Público o artigo “Até Que Enfim, Legendas“, de Antonio Granado, fiquei supresa ao saber que a dublagem é mesmo considerada “despropositada”. Nas palavras do autor: “Há uns meses, escrevi aqui que a decisão de pôr umas vozes ridículas por cima de outras vozes me parecia despropositada nos tempos que correm. (…) A legendagem sempre foi, e ainda bem, uma tradição da televisão portuguesa, que nenhuma direcção de informação, por mais iluminada que se sentisse, devia alguma vez ter tentado mudar. (…) Sei também que esta opinião não é só minha, mas de muitas dezenas de profissionais que há anos trabalham na televisão pública.” Pois… Vive la difference.

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3 thoughts on “Vozes ridículas

  1. A sua observação é pertinente. Tem a ver com a tradição. Portugal, diferentemente de países como a Espanha e a Itália (e o seu país) tem tradição de dobragem. A vantagem da dobragem é acompanhar a imagem sem necessidade de desviar o olhar para o fundo do ecrã; a desvantagem é não ouvir as vozes originais. Esta tradição tem fortes apoios (eu também sou a favor) mas levanta dificuldades: a) os programas para crianças são dobrados e não legendados (e há vozes fabulosas a dobrar, como a do recentemente falecido Canto e Castro), b) há ainda um valor elevado de iliteracia, o que afasta a recepção de programas em língua inglesa e a aproxime de programas na nossa língua (talvez uma das razões do grande sucesso das telenovelas do seu país a partir de 1977 tenha sido a língua comum, num momento em que o poder de compra aumentou e se adquiriram mais televisores).Diferenças entre culturas é o que mais entusiasmante existe. Ainda bem que há dublagem no Brasil (ou em países europeus próximos geograficamente de Portugal) e você levanta a questão, para reflectirmos na tradição. É que esta é permeável à mudança: só não sabemos para onde caminha o futuro – pela legendagem ou pela dobragem? Esta é própria de países com mais dificuldades de leitura, aquela referencia países mais letrados. As elites em Portugal querem ser identificadas com estes mas parecemo-nos mais com aqueles.

  2. Relativamente ao futuro, não sei ao certo. A dificuldade de leitura é um entrave. Não podemos nos esquecer entretanto que a indústria da dublagem no Brasil fatura muito dinheiro e não irá arredar o pé do negócio tão cedo. :)abs, daniela.

  3. Daniela,A dobragem sempre existiu na televisão portuguesa, mesmo nas alturas em que os níveis de iliteracia eram muito maiores do que os actuais. Ouvir a língua original tem muitas vantagens, uma das quais é aprendê-la muito melhor. Não é por acaso que, em média, os portugueses têm muito melhor pronúncia do inglês, do espanhol ou do francês do que pessoas de outras nacionalidades que não estão habituadas a ouvir as línguas originais ou que quase nunca as ouvem.Habituar-se à sonoridade do inglês desde criança, ouvir Humphrey Bogart dizer “Play it again, Sam” em vez de “Tocala otra vez, Sam” é um privilégio que nenhuma televisão tem o direito de tirar aos seus espectadores…

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