Castells aglutina “banda digital” do V FSM

(Porto Alegre, BR Press) – Um encontro aparentemente inusitado tornou-se um dos painéis mais concorridos do V Fórum Social Mundial. Em um amplo salão próximo ao Cais do Porto de Porto Alegre, junto ao rio Guaíba, cerca de 900 pessoas – professores e estudantes de comunicação, defensores de software livre, profissionais envolvidos nos mais diferentes projetos digitais – reuniram-se para acompanhar o debate protagonizado pelo sociólogo catalão Manuel Castells; o ministro da Cultura Gilberto Gil; o ex-letrista da legendária banda Grateful Dead, John Perry Barlow; o advogado norte-americano, Lawrence Lessig, organizador da Creative Commons e Christian Ahlert, do Oxford Internet Institute, da Universidade de Oxford, e da Creative Commons, na Inglaterra. A convergência entre os cinco palestrantes é a (silenciosa) revolução digital, ora em marcha de forma desigual em praticamente todos os países do mundo.

Para Castells, radicado em Berkeley e responsável por uma série de pesquisas mais abrangentes sobre as mudanças digitais ocorridas a partir da internet, a luta pela liberdade no novo espaço virtual é não só permanente, como premente. Sua trilogia Era da Informação, com mais de 1.500 páginas, e o livro Galáxia da Internet, que faz um “up-grade” da trinca, é referência quase que obrigatória entre todos os estudiosos da comunicação contemporânea.

Castells transita com desenvoltura entre a análise acadêmica e os problemas práticos do mundo de hoje. “O que aconteceu em Genebra, no ano de 2004, em que os governos de todo o mundo – liderados pelo governo chinês – estavam basicamente preocupados em encontrar formas de controle da informação que circula na internet, foi um escândalo”, alerta.

Embate de forças

Reportando-se à história ainda recente deste novo meio de comunicação de massas, Castells argumenta que, por pouco, a internet não nasceu sob o guarda-chuva da AT&T. A empresa de telecomunicações achou a nova mídia contra-producente comercialmente, assim como a Microsoft, que também perdeu o bonde dessa história, desdenhando da internet em seu início.

Para o sociólogo catalão, há um embate que está longe de terminar entre as forças mais conservadoras – quase sempre associadas a governos – e as forças renovadoras, que querem fazer da nova mídia uma plataforma livre de controles externos, burocráticos ou de governos.

Lógica digital

Gilberto Gil indicou a perigranação que cada um precisaria fazer entre as centenas de atividades do 5o. FSM – são cerca de 2.500 em cinco dias –, dizendo que escolheu o painel da Revolução Digital como seu campo de batalha. “Há no Fórum”, disse o ministro, “uma disparidade de encontros: desde aqueles que ainda tem uma lógica analógica antiquada como os partidos marxistas ou marxistas-leninistas, até aqueles que estão já em uma lógica digital”. E afirmou: “Eu estou com estes últimos”.

Lawrence Lessig, apesar do jeitão de advogado norte-americano circunspecto, o que também é, apresentou quase que um espetáculo multimídia, a partir de seu laptop projetado no telão para o público que acompanhou perplexo sua criatividade. Ele defende o “remix” como uma atitude cultural permanente e para o qual as apropriações e reelaborações das produções culturais passam a ser um novo paradigma. “Free word, free speech, free culture, free world”.

O ex-letrista da legendária banda Grateful Dead e também ex-hippie e agora “libertário do espaço virtual”, como foi chamado, John Perry Barlow está hoje envolvido com a ONG Eletronic Free Frontiers. Concordando com os argumentos de Barlow, para Lessing, aquele que domina a palavra, domina o processo social e portanto os rumos da economia.

Hoje Barlow é uma espécie de lobista às avessas junto ao Senado norte-americano, defendendo a perspectiva de uma internet sem interferências governamentais e da liberdade de expressão dentro dessa nova mídia.

Desdém analógico

Grande parte dos 2.500 painéis do 5o. FSM não encontraram seu espaço no mundo virtual. Mais do que isso, muito acadêmicos chamados a debater sobre o tema do modo como a humanidade se comunica ainda desdenha da internet, ainda que ela já conte com mais de 800 milhões de usuários, em praticamente todos os países do mundo.

O painel da Revolução Digital aponta para situações já existentes e rumos imediatos que, aparentemente, muitos dos participantes teimam em ignorar ou desdenhar. O embate entre o novo e o velho está assim também instalado dentro do próprio Fórum Social Mundial.

Confira aqui a íntegra (agora) em espanhol da palestra de Castells neste sábado, dia 29.

Publicado originalmente no Yahoo! Notícias.

Copyright: parceria Intermezzo & BR Press

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One thought on “Castells aglutina “banda digital” do V FSM

  1. Curiosa a idéia de permanente atitude “remix” do Lawrence Lessig, embora pareça meio afetada. :)Informações preciosas, Sérgio. Legal.

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