Os caminhos que levam às bolhas nos pés

Lá para os idos de 800 e poucos, nos primeiros anos do século IX, um bispo encontra o sepulcro do apóstolo Thiago e naquela terra levantam-se igrejas e monastérios; e a partir daí começa a formar-se a cidade de Santiago de Compostela, hoje sede do governo da Galicia na Espanha. Imaginem só que foi curiosamente nesta paisagem que nos remete ao passado e na qual vemos peregrinos a ganhar bolhas nos pés que alguns acadêmicos e profissionais da área de comunicação reuniram-se nestes dois últimos dias de Novembro para debater o futuro do Jornalismo digital — ou melhor, do Xornalismo digital, se quisermos manter o sotaque galelo. Retorno agora daquela terra e tento dividir brevemente com os colegas uma ou outra coisita interessante que lá ouvi.

Vamos lá. Das exposições da segunda (29), primeiro dia do encontro do Congreso Iberoamericano de Periodismo Digital, faço referência aqui à apresentação de Enrique Otero, editor do jornal chileno La Tercera. O gajo se propôs a responder à questão: “Como organizar uma redação de um webjornal com apenas oito pessoas?”. E o fez. Segue um esquema do que Otero nos contou a partir de sua experiência latinoamericana:

O orçamento: 8 mil dólares.

Os objetivos: 1. Criar um ritmo de atualização constante de notícias; 2. Aproveitar ao máximo o material do impresso e 3. Encontrar um diferencial diante da concorrência (online).

As decisões tomadas: 1. Colocar a equipe da redação do jornal online dentro da redação do jornal impresso, lado a lado mesmo; e 2. Criar a figura de um “Editor Web” que também participasse das reuniões de pauta do impresso e pudesse decidir em conjunto quais pautas seriam tocadas por quais equipes e de que maneira o fariam.

A estrutura da equipe: 1 Editor, 2 Redatores, 2 Repórteres (de rua), 1 Editor “nocturno”(plantão), 1 Infografista e 1 “Diseñador”.

As primeiras conquistas: 1. Furos de reportagem (e credibilidade); e 2. de um modo geral, o reconhecimento de que a publicação online cumpria o seu papel de jornal.

Os primeiros problemas: 1. Estresse da equipe; 2. “Brigas” entre as equipes do impresso e do online (pelas pautas, por decisões de embargo etc.); e 3. Uma certa desmotivação.

Se tivessem mais 5 mil, o que fariam? 1. Apostariam da interatividade, na multimidialidade (sobretudo no que diz respeito aos áudios captadas pela equipe do impresso) e contratariam o que eles chamam de repórteres de “motocicleta”, ou seja, jornalistas que vão às ruas à caça de notícias e depois passam as informações (por telefone, internet etc.) para a redação.

Vamos agora ao pensamento bem apurado do simpático professor José Luis Orihuela, da Universidad de Navarra, o qual apresentou nesta terça (30) um trabalho intitulado “O impacto dos weblogs sobre o ecossistema midiático”. Segue abaixo os apontamentos que fiz a partir da apresentação dele. (Há muitas outras informações e enlaces disponíveis aqui no blog eCuaderno).

* Weblogs podem ser…Weblogs de mídias, weblogs como formato de coberturas, weblogs de jornalistas, weblogs sobre mídia e jornalismo, weblogs como fontes para as mídia.

* A blogosfera pode ser um filtro.

* Os weblogs são um outro meio.

* Weblogs não são jornalísticos apenas por serem weblogs.

* Weblogs não vão substituir o jornalismo e nem outros meios. Os meios têm funções complementares.

* Os weblogs são apenas a parte mais visível de uma tendência emergente (e aqui acho que Orihuela invoca McLuhan).

* Vivemos em um novo ecossistema midiático (ver “We The Media” e “We Media”)

* Os usuários são protagonistas.

* Temos (ou teremos?) informação e opinião em diversos formatos.

* Temos (ou teremos?) um saber coletivo.

* Antes tínhamos a fórmula do “primeiro se filtra e depois se publica” e, para já, o inverso: “primeiro se publica e depois se filtra”.

* Forma horizontal: de cidadãos para cidadãos.

Obviamente que houve tantas outras interessantíssimas comunicações e dentro deste rol coloco a da Universidade do Minho realizada pelo professor Luis António Santos (do Atrium) e a do colega de Mestrado Fernando Zamith (ver resumo), ambas rondando também o tema Weblogs, embora com outros enfoques. Também os participantes do encontro puderam acompanhar a apresentação do brasileiro Rosental Calmon Alves, da Universidade do Texas (Knight Center) — e foi realmente uma pena não ter chegado a tempo de assisti-lo.

No geral, ficou-me a sensação de que as discussões acadêmicas em torno do tema Jornalismo Digital estão avançando a passos largos. Mas há muito chão e ainda nem fomos presenteados com algumas bolhas nos pés. O usar ou descartar a “pirâmide invertida” em notícias ciberjornalísticas — para ficar em apenas um exemplo — ainda gera deliciosas controvérsias.

Para quem quiser saber mais: o blogueiro Antonio Delgado, do Caspa.tv – uma figuraça – , fez a cobertura do evento em tempo real. Deixo aqui o link para os interessados conferirem o resultado de seu esforço. Também no Jornalismo & Comunicação há algum comentário do Prof. Manuel Pinto, por aqui.

Para finalizar, deixo um beijo aos blogueiros que conheci no Bloggers and Beers e um abração aos companheiros de peregrinação até Santiago. Agora, cama! Inté. 🙂

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