A IMPRENSA DE CALÇAS Tive a oportunidade de deb…

A IMPRENSA DE CALÇAS

Tive a oportunidade de debater o tema abaixo diretamente com o ombudsman da FSP, Marcelo Beraba, e agora reitero aqui: a reflexão sobre se a imprensa tem uma feição mais masculinizada do que afeminada — de acordo com a rara ou a forte participação de mulheres na mesma — vale não somente para os (as) que fazem jornal como para os (as) que o lêem. Vamos aos excertos da coluna do amigo publicada neste último domingo (11):

# “O jornal [FSP] publicou 57 cartas no seu “Painel do Leitor”, sendo 43 assinadas por homens (75%) e 14 (25%) por mulheres. Pesquisei nos dois concorrentes diretos, e o resultado foi bem parecido. No mesmo período [uma semana completa, de sábado, dia 3, à sexta, dia 9], “O Estado” publicou 87 cartas nas suas duas seções, “Fórum dos Leitores” e “Fórum de Debate”: 65 assinadas por homens (75%) e 22 por mulheres (25%). No “Globo”, foram 137 cartas, sendo 108 de homens (79%) e 29 (21%) de mulheres.”

# “(…) Foram publicados 14 artigos, todos assinados por homens. Todos. O último artigo assinado por uma mulher saiu na sexta-feira, dia 2, de Maria Sylvia Carvalho Franco, professora de Filosofia da Unicamp e da USP, “Lula e cultura popular”. Na sexta anterior, 25 de junho, saíra “O Brasil na França”, da escritora e psicanalista Betty Milan. A situação nos dois concorrentes é absolutamente igual. Na semana pesquisada, “O Estado” publicou 14 artigos no seu “Espaço Aberto” e “O Globo”, 15 (não incluí os articulistas fixos). Todos assinados por homens. Levantamento feito pela Coordenação de Artigos e Eventos da Folha, responsável pela edição dos artigos, revela que nos últimos 365 dias foram publicados 730 artigos e apenas 63 foram assinados por mulheres. Ou seja, 9% (…)” (Sobre os artigos da página A3, em “Tendências e Debates”, escolhidos pela própria FSP).

# “O caso dos artigos é única e exclusiva responsabilidade dos jornais. Embora eles aceitem colaborações, a maioria dos artigos que publicam é por encomenda. Segundo Chiossi [editor da seção], a edição dos artigos não segue uma política de cotas de gênero, mas tem como critério o cargo, a representatividade e a qualidade do texto do articulista. “A mínima participação de mulheres não é intencional”, diz.”

# “O problema das cartas é diferente porque, pelo levantamento feito por Tedesco [editor da seção], é pequeno o número de cartas que chegam assinadas por mulheres. Na quinta, véspera do feriado paulista, ele recebeu 68 cartas e e-mails. Destas, apenas nove (13%) foram enviadas por mulheres.”

# “O jornal é tradicionalmente identificado com o público masculino, mas isso vem mudando com os anos. O último Perfil do Leitor da Folha, realizado em 2000, mostrou que metade dos leitores do jornal é formada por mulheres. A Folha deveria refletir um pouco sobre essa situação se quer estar em sintonia com o seu público e crescer. (…) O jornal deveria abrir mais espaço com a preocupação de que a edição das cartas reflita equilíbrio e diversidade.”

# “(…) anos atrás eu fiz um levantamento na “Veja”, nas Páginas Amarelas (de entrevistas), e aí era realmente acachapante. Houve um ano com apenas uma mulher entrevistada. Nesse caso, como no caso da seção de artigos da Folha, é uma seleção editorial e eu duvido que não tivessem outras mulheres que pudessem ser entrevistadas. (…) A imprensa é um gênero masculino (rindo). Apesar de todo o avanço no mercado de trabalho, a imprensa ainda é masculina. Na verdade, o mundo ainda é um mundo de padrão masculino, por mais que hoje exista uma criação mais libertária. (…) Eu penso que a imprensa poderia ajudar, não com um sistema de cotas, como os partidos políticos, mas podia pensar um pouquinho mais nessa questão de gênero e de diversidade. Não só de gênero, mas de idade, de etnia, de local de moradia. A mídia se enriqueceria muito.” (Dulcília Schroeder Buitoni, professora de Jornalismo na ECA/USP, autora dos livros ‘Mulher de Papel’ e ‘Imprensa Feminina’, em entrevista ao ombudsman).

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