O CASO NYT – DERRADEIRA PARTE (ou “que seja o fi…

O CASO NYT – DERRADEIRA PARTE

(ou “que seja o fim deste imbróglio”)

Nada menos que 972. Este foi o número de mensagens eletrônicas que trataram especificamente do caso “NYT-Larry/Lula” e foram despejadas na minha caixa postal nesta última semana – entre domingo (9) e as 11 horas da manhã do dia de hoje (16). Uma média de 121 emails/dia. Boa parte escrita por colegas jornalistas. Gente debatendo a questão, apresentando suas opiniões, fazendo reflexões, trazendo dados novos, especulando. Deu de tudo. Muita elucubração besta. E muita coisa aproveitável também. O caso NYT foi, sem a mais pálida dúvida, o assunto da semana. É infactível aqui no blog dar conta de toda a repercussão realizada na imprensa (pincelamos algo sobre a “cibercobertura” nas partes I, II e III). Então, meio que em clima de fim de festa — de ressaca, para usar um termo que orna mais com o destrambelhamento desta história — destaco excertos de duas colunas que me chamaram a atenção no dia de hoje (íntegra para assinantes e cadastrados).

Vamos aos trechos:

# “O mau jornalismo e a liberdade de imprensa” (Coluna de Marcelo Beraba, Ombudsman da Folha de S. Paulo, 16/05/04).

“1 – O assunto era pertinente? Um jornalista deve se preocupar com os hábitos ou se interessar pela vida privada de um homem público? Acredito que sim. Como escreveu a advogada Taís Gasparian quinta-feira nesta Folha, “como homem público, sua esfera de privacidade é reduzida, pois seus atos importam à nação”.

2 – A reportagem do “NYT” foi bem-feita? Não. Sob o ponto de vista, jornalístico ela é malfeita. É uma colagem de opiniões (o que chamamos no jargão jornalístico, pejorativamente, de recortagem), não há informações novas, as fontes citadas não são corretamente identificadas para que o leitor possa julgar o peso de suas opiniões ou informações e não há o relato de nenhum fato que dê consistência às duas afirmações mais relevantes do texto: a de que o hábito de beber possa estar afetando a performance de Lula no cargo e a de que esse hábito tenha virado uma preocupação nacional.

3 – Foi correta a reação do governo brasileiro à publicação da reportagem? Acho que não. Desde o início, sua resposta foi desproporcional e ajudou a inchar um caso que não tinha tido repercussão na imprensa internacional e que, internamente, tinha atraído o repúdio até da oposição. A decisão de cassar o visto de Rohter foi um erro. Não sob o ponto de vista da imagem do governo, porque esse é um problema do governo, mas sob o ponto de vista da democracia e de suas liberdades. O presidente (não a nação) se sentiu ofendido em sua honra e deveria procurar reparação na Justiça.

4 – A reação da imprensa contra a expulsão foi corporativa? Não acho. É um erro considerar as liberdades de expressão e de imprensa privilégios dos jornalistas. São conquistas democráticas, no nosso caso obtidas com muitas dificuldades, que garantem o mínimo de fiscalização sobre governos cada vez mais fortes e sem controle.”

# “Das intenções de Rohter aos ideários de Lula” (Coluna de Carlos Chaparro no Comunique-se, 14/05/04).

“Das convicções que regem a dinâmica do jornalismo, elaboradas pelos mecanismos culturais ao longo dos últimos 150 anos, uma se sobrepõe a todas – esta: só há notícia se a informação for veraz. E porque assim está estabelecido, e para que assim seja, a linguagem jornalística desenvolveu técnicas e comportamentos tributários da veracidade. Por exemplo, as técnicas e/ou comportamentos de apuração rigorosa, aferição honesta, valoração ética e depuração criteriosa. Em favor da capacidade de se fazer acreditar, a linguagem jornalística dá nome às coisas e pessoas, identifica fontes, localiza os fatos no espaço e no tempo, e os relata com técnicas próprias de clareza e precisão.”

“A sedução da veracidade integra uma trilogia solidária, completada por mais duas seduções: a estética do conflito, que dá ordem e arte à expressão jornalística; e a perspectiva ética, obrigatória, como fonte de razões e critérios para escolhas e decisões editoriais.”

“(…) talvez valha a pena propor um pequeno exercício de aplicação, em torno de duas questões: 1) Onde Larry Rohter quis chegar, com as sinuosidades intencionais da sua reportagem? 2) Em que ideário Lula se inspirou quando decidiu expulsar Rohter e ao dizer que o caso deveria “servir de exemplo” aos outros correspondentes estrangeiros?”

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